sexta-feira, 2 de maio de 2014

A tarde de Maio

A primavera sente-se muito para lá da perfeição de cores que nos encantam e prendem o olhar, à medida que os nossos passos avançam pela vereda muito estreita, caminho desenhado pelo calcar insistente da perseverança do Homem, trajecto de terra aqui e ali invadido pela erva ainda fresca que brotou de um inverno generoso de chuva.
Sigo pelo campo sem rota
Sou dono de mil caminhos
Por entre a vida que aqui brota
Entre estevas, poejo e pinhos
Mais à frente, o rosmaninho impõe a sua cor arroxeada, que brilha intensa por entre o quase monopólio de verde, e o momento impõe que o acariciemos, bebendo então as mãos daquele odor único de uma alfazema brava que me recordará sempre o cheiro da fé espalhada pelas ruas da minha terra em dias de passeio de Nosso Senhor.
E aqui parados junto ao tronco de uma árvore sem idade, sentimos e lemos o norte na muito natural e micológica bússola semeada pela brisa fresca.
Quem me dera ter-te aqui
E ir contigo mão-na-mão
Embora tudo me fale de ti
E me incendeie o coração
Há uma paz que se colhe de tudo o que se sente, e também de todas as infinitas memórias que nos assaltam e nos acompanham enquanto os pés avançam campo fora fazendo-nos ressuscitar a cada flor, a cada cheiro; uma história e as histórias de tantos dias felizes.
Paramos à sombra de um sobreiro de onde se avista a ribeira que corre generosa e deixamo-nos embalar pelo cantar perfeito de um cuco que nunca saberemos de onde vem mas que se faz presente e nos alegra as horas.
Fecho os olhos naquele esforço de quem quer dar força e primazia a todos os demais sentidos, e registar e tornar eterno este momento.
Na terra com cheiro de flor
Dormi num sonho com o teu sorrir
Foi a hora de soltar o amor
E finalmente ver Maio florir
E sinto-me em casa e colho do meu respirar profundo de mil aromas, todo o alento para regressar ao caminho sob o sol que me beija despudoradamente, o sol sinto adormecer com o cair da tarde, à medida que me “empurra” e me devolve à mesa dos amigos onde o pão, o vinho e a conversa; me esperam todos para a hora da celebração da amizade.
E tu, sempre no meu coração.
Sou de aqui e sou teu
Sou deste campo risonho
Meu amor, para que eu seja eu
Jamais partas deste sonho

E assim, de afectos e de amor, se cumpre Maio.

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