segunda-feira, 28 de abril de 2014

As palavras

Indiferente às condições meteorológicas que poderão ser mais ou menos agrestes, às marés, à força das ondas, às estações do ano, à posição dos astros, às fases da lua, aos humores… e sendo muito mais do que apenas duas dúzias de horas oferecidas ao nosso passivo acto de respirar; os dias são fontes inesgotáveis de palavras.
De palavras ditas, escritas, cantadas, desenhadas, choradas, soluçadas, subentendidas…
De palavras e de silêncios, porque estes, porque as não têm, falam tanto ou mais do que elas.
Os dias são então nascentes de palavras sublinhadas ou não pela tinta da melhor verdade, aquela que é dádiva gratuita do espelho generoso que é o olhar.
E as palavras são assim e tantas vezes, perfumados detalhes tecidos a letras no tear de uma incessante poesia.
Há palavras ocas, estéreis, vãs e sem qualquer sentido; ou palavras recheadas do conteúdo que os gestos e as atitudes sempre lhes oferecem, quando os dias não as pretendem ver abandonadas nesse famoso orfanato das boas intenções.
Há palavras eternas porque enraizadas no sentir; e palavras descartáveis nascidas do bem parecer do socialmente correcto, as palavras que são adorno e fancaria dos travestidos de carácter.
Há palavras terapêuticas e que saram feridas; e palavras mortíferas e afiadas como punhais.
E nós, privilegiados geradores e emissores de todas essas palavras, temos a opção de um espectro entre o helicóptero que manda flores sobre uma multidão em festa, ou o Enola Gay, bombardeiro B-29 lançando a morte sobre Hiroshima.
Porque há palavras que florescem de esperança e fazem sorrir os outros; e há palavras que são bombas bem mais letais que as atómicas, matando friamente os Homens sem direito a qualquer apelo.
Porque há palavras como há vida e há morte, amor e ódio, fidelidade e traição, perdão e rancor, o riso e a dor do choro, um abraço e o esmurrar feroz de alguém…
E “há palavras que nos beijam como se tivessem boca”, afirmou um dia o poeta de “A gaivota”, o grande Alexandre O’Neill.
Na reconhecida e justa reciprocidade, ouso eu acrescentar que há palavras que são beijos dados por nós sobretudo quando é de amor que se faz o sentir e se preenche verdadeiramente aquele “espaço” que é o melhor de nós, o “território” a que chamamos alma e que ingenuamente insistimos em desenhar com a forma de um rubro coração.
E há dias como hoje em que um louco com alma vadia de poeta se senta em frente ao mar, mergulha no privilégio de um azul sem fim e… sente que as palavras se soltam ao ritmo dos seus inquietos pensamentos.
Para falar de amor e para vos abraçar a todos com um sorriso também tecido pelas inevitáveis palavras.

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