quinta-feira, 17 de abril de 2014

Palavras ao vento

Sente-se a brisa do Tejo quando o sol se põe e a fachada dos Jerónimos emerge num tom verde que rima com a fonte da Praça do Império, a explosão artificial de água que à mercê do vento acaba quase sempre por me vir beijar o rosto quando sou apenas mais um na grande MARCHA DOS DESALINHADOS que por uma noite abre uma excepção e se alinha na disposição de matar saudades recuando vinte anos e reencontrando o FADO e a história de tantos dias felizes.
Por instantes olho à volta mais do que para o palco e descubro que NÃO SOU O ÚNICO a ter agora cabelos brancos e a ter sofrido um upgrade no volume corporal.
E elas são agora senhoras cheias de madeixas louras.
Estamos todos diferentes mas parece que só por fora… afinal, quem NASCE SELVAGEM jamais se rende a “gaiolas”, e isso percebe-se claramente quando todos juntos abrimos as vozes e se solta o tom de LIBERDADE da nossa genética de “filhos da madrugada” e cantamos a urgência do querer que sente que AMANHÃ É SEMPRE LONGE DEMAIS.
Estou em festa com a minha geração e não é só para matar saudades.
Hoje sorrimos porque algumas causas dos anos de entre oitenta e noventa do século passado, TIMOR por exemplo, já deixaram de ser um PERIGO e já deixámos para trás alguns dos mais tristes dias de AQUELE INVERNO.
Mas para quem sonha, as lutas nunca têm FIM, e FINISTERRA, ao jeito de um cabo algures na costa dos nossos medos, é tão-só um breve momento de ilusão porque a nossa sina é SER MAIOR e é feita de conquistas mares fora em busca de um derradeiro e perfeito LUGAR AO SOL.
Mesmo que tantas vezes… SÓ NO MAR.
CHAMARAM-ME CIGANO já muitas vezes por causa desta inquieta errância. Mas mesmo assim prometo, e prometo-me, não deixar morrer o “diabo” que tenho na mão… deixando de o ser.
Eu e todos aqueles em quem me reconheci na plateia e no palco do concerto da Resistência no Centro Cultural de Belém, quando as palavras e os acordes foram a expressão sonora do ADN da minha geração.
Cá fora, no ar da Praça do Império, há agora mais do que água da fonte, há palavras ao vento, pedaços de história e de vontades beijando-nos pela via da memória que se tornou tão nítida.
A NOITE vale sempre a pena quando é assim um momento de encontro com amigos e quando percebemos que nunca estaremos velhos porque por mais anos que passem… “só o sonho fica, só ele pode ficar”. 

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