quarta-feira, 12 de agosto de 2015

JÚBILO


No verão de 1984, acabado de completar 18 anos e em trânsito de Vila Viçosa para Lisboa, fui com a Augusta, a Marina e o Amândio, amigos de há muitos anos, para uma aldeia do concelho de Coruche, a Lamarosa, para “passarmos” uma semana de “Férias Missionárias”.
“Apóstolos” de calças de ganga e repletos de certezas, boas vontades e sonhos, bem dispostos… ficámos alojados numa vivenda ao lado da igreja, tomávamos banho de água fria pois tínhamos de ir buscar água ao poço de um vizinho, cozinhávamos iscas panadas com migas de tomate, telefonávamos de uma cabine telefónica que existia numa mercearia, recebíamos imensos alimentos que as pessoas nos ofereciam (nunca mais provei pêssegos tão bons), escondíamos os pijamas uns aos outros no sótão onde estava guardado um gramofone; e sobretudo, não dispensávamos uma só oportunidade para ficar à conversa com toda a gente dizendo ao que íamos.
E falávamos da fé no Deus que era resposta ao amor que buscávamos para a vida.
Ao princípio do serão rezávamos o terço na igreja com um grupo de pessoas que crescia em número de dia para dia, facto que nos deixava muito felizes.
Mas num dos dias, demasiado animados, achámos que tínhamos tudo para bater o record de participantes e decidimos que eu iria subir à torre para tocar o sino, coisa que faria pela primeira vez.
Não me demiti das funções que me tinham sido atribuídas e subi convictamente os degraus em caracol para uma “performance” que eu acreditei ter sido de júbilo e alegria. Jamais a lezíria seria igual depois daquele “concerto”; eu, uma espécie de “Jean Michel Barreiros Jarre” mas na versão de sacristia.
Pois…
As pessoas começaram a aparecer de facto em grande número mas não propriamente para participarem no terço, só queriam saber qual a desgraça que tinha atingido a aldeia àquela hora: era incêndio ou tinha morrido alguém?
E desta forma terminou prematuramente a minha carreira de sacristão e tocador de sino e carrilhões.
Lembrei-me de vos contar esta história porque no âmbito do desafio “Um mês A GOSTO”, pedi ao meu amigo José Fernandes que me desse um mote com a letra J e ele lembrou-se de Júbilo.
O José Fernandes é natural da Lamarosa e eu conheci-o nesses dias de 1984. Voltámos a encontrar-nos um par de vezes depois destas férias e ficámos quase trinta anos sem nos ver até que nos reencontrámos por mérito do Facebook à mesa de uma pastelaria do bairro onde ambos vivemos há muitos anos, sem que o soubéssemos antes da internet.
Penso que o Zé não se importará que eu diga que o tempo nestes trinta anos se encarregou de lhe concentrar no coração toda a vida que andava dispersa pelos sentidos, mormente na audição.
E nós encontramo-nos por aqui, eu estou a dever-lhe um livro “Nós” e ele “irrita-me” quando o Benfica perde; mas num destes dias lá iremos os dois tomar um café por entre uma conversa que às vezes vê as palavras ditas substituídas pelas escritas num guardanapo ou noutro papel que tenhamos mais à mão.
Júbilo?
Zé, muito bem escolhido.
O que se vê, ou aquilo que se escuta de nós à mesa do café ou no cimo da mais importante torre altaneira, jamais terá algo a ver com a vida que em nós pulsa.
O júbilo é coisa da alma, daquilo que se sente, como tudo o que trazes no coração.
   
 (“Um mês A GOSTO” / Dia 12 / Letra J / Tema proposto por José Fernandes)

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