sábado, 29 de agosto de 2015

WATER


No dia largo de um Julho ainda a começar, o sol a pique sobre as sete colinas, o repicar alegre dos sinos nas torres das igrejas e dos mosteiros, o burburinho da gente nos mercados da cidade, o pregão e a notícia que corre pelas esquinas…
Nós tomámos as naus em nossas mãos, e alinhando as águas e os ventos com a vontade, soltámos as velas, deixámos no cais o peito dos amores tolhidos pela mágoa, e contra a voz dos incrédulos, dos “velhos”, e por entre a tão lusa saudade, partimos do Restelo...
O Tejo, a barra, e finalmente o mar.
De Lisboa, a genética dos heróis inscrita na letra de um fado em tom maior, tão grande quanto a ambição que não cabe aqui; que um povo é do tamanho daquilo que a sua alma sonha, muito mais do que da terra inscrita entre as suas fronteiras.
Seguimos com Vasco da Gama; e com uma imensa garra, ao mar nos fazemos… pela fé, pela glória do império, por pimenta, gengibre, cravo, canela e açafrão.
Sem temores, desprezando mostrengos e adamastores, na cumplicidade do sol, das estrelas, um astrolábio, milhões de sonhos, e a bombordo...
Rio dos Bons Sinais, Baía de Santa Helena um pouco antes da Boa Esperança, Moçambique, Mombaça, Melinde... e finalmente Calecute.
Três continentes, dois mares, mas um só povo e a ambição de um rei, Manuel, a alma capaz de reinventar o mundo; Portugal, e nas velas como nas veias inscrita a nossa fé e a nossa vontade: a Cruz de Cristo.
Eu, marinheiro sem nome vim hoje à proa da nau, é novamente Julho e já sinto a brisa de Lisboa, parecendo que esta estrada de luz plantada pela lua, é afinal um tapete estendido pelo céu para que não nos percamos algures neste doce regresso ao Tejo.
Às vezes os heróis também choram e não há Português que não o faça de saudade; e aqui no navio fazendo versos espreitando o luar, não sei se o sal que provo é um doce beijo do Atlântico, ou se pelo contrário sou eu quem oferece hoje o sal ao mar.
Amanhã dar-te-ei um beijo, sei que estarás na praia para me ver chegar, oferecendo à mais marinheira das cidades, a velha Olisipo, o definitivo destino que Camões cantará como Ilha dos Amores, a terra sagrada da lusíada eternidade…
Eu, um marinheiro sem nome que conseguiu vislumbrar-te em todos os segundos no espelho imenso de navegar, nos infinitos dias azuis em que o mundo parece ser só água, e em que olhando as asas das gaivotas, o coração repetia:
- Quem me dera.
Navegar pelo império, pela fé, por gengibre…
Para me fazer herói para ti e por tanto te querer ver feliz no cais à minha espera.

(“Um mês A GOSTO” / Dia 29 / Tema proposto por Ana e Manuel Almas)

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