sexta-feira, 28 de agosto de 2015

RESILIÊNCIA


Há dias assim, como hoje, manhãs envoltas por esta neblina que não me deixa ver o mar e apreciar-lhe o tom azul, sentir o sol; e depois quiçá avançar pela areia que sinto arrefecer à medida que me aproximo do abraço das ondas, para me oferecer a mim próprio um mergulho nas águas perfeitas do Atlântico.
Trouxe a mochila, o guarda-sol, a cadeira que se regula na inclinação das costas para que eu possa ler ou adormecer deitado, trouxe uma toalha colorida, um livro, um caderno, uma esferográfica, algumas maçãs e uma garrafa de água bem fresca.
Não desisto.
A areia está húmida por efeito de umas pequenas gotículas frescas que caem e eu sento-me na cadeira e debaixo do guarda-sol que para já me protege… da chuva.
Ofereci um ângulo de noventa graus às costas da cadeira relativamente ao assento, e estou em óptima posição para escrever. A toalha, pu-la a cobrir-me parte das pernas e a resguardar-me da aragem fria.
Puxo do bloco e da esferográfica enquanto reparo que está bandeira amarela.
A praia está quase deserta e por isso fico por ali mais tempo à conversa com o nadador-salvador e com o vendedor das Bolas de Berlim que entretanto passa, e que hoje trocou os gritos para a multidão por uma muito discreta frase quase ao meu ouvido:
- Então amigo, hoje vai uma bola?
- Vai sim, e com creme; que hoje o sol não patrocina bactérias no bendito bolo frito.
- Então compra uma e eu ofereço-lhe outra que fica aqui para mais logo.
- Obrigado.
Pago e fico por ali mais dez minutos à conversa. O rapaz é Alentejano como eu e tem este trabalho de verão há já dez anos. Ganha algum dinheiro extra e ajuda uma tia que vive na margem sul e se dedica a fazer bolos para fora.
Depois, confessa-me que ao fim da tarde vem sempre dar um mergulho, e que por isso e por fazê-lo sozinho, pode afirmar que esta praia é sua propriedade.
O rapaz vai-se embora e eu não tardo a comer a minha Bola de Berlim.
Tenho a outra ali ao lado perto das maçãs e recomeço a escrever…
Era uma vez um rapaz que passava os dias a namorar o mar mais azul do universo, e que depois já mais tarde e antes do anoitecer, vinha dar-lhe um abraço e um beijo deixando-se envolver com ele na perfeição do pôr-do-sol…
Escrevo sobre o mar azul, não o vejo mas “pintei-o” assim a partir da conversa com o rapaz que apregoa Bolas de Berlim.
Há dias assim, como hoje, manhãs envoltas por esta neblina…
Dias em que é preciso que nos reinventemos, conseguindo até tirar o cinza e substitui-lo pelo azul no tom do mar que vislumbramos algures por aí.
Dias únicos em que somos felizes mesmo sem conseguirmos dar um mergulho, mas aprendendo como se ganha uma praia só para nós.
Resiliência…
Uma montanha que se interponha entre nós e o mar sempre pode ser um degrau que subimos para ficar mais perto do céu.

(“Um mês A GOSTO” / Dia 28 / Tema proposto por Marco António)

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