domingo, 5 de janeiro de 2014

Os heróis são eternos mas há manhãs em que deles sentimos saudade

Contrariando as profecias, há manhãs de nevoeiro que não nos trazem nada e que definitivamente nos deixam mais pobres.
Hoje foi assim. Dois tiros certeiros no meu “porta-afectos”.
Eusébio partiu.
Nunca vi jogar o Pantera Negra pois quando vim para Lisboa ele já não abrilhantava as tardes de domingo do velho Estádio da Luz onde eu não resistia a ir sempre que ficava por cá, mas é pelo Eusébio que eu sou do Benfica.
O meu pai é sócio do Sporting e seria lógico que eu seguisse a genética clubista da família. Mas não, por mérito da arte de Eusébio e do relato dos seus golos que chegavam ao velho rádio de pilhas do meu tio José Boquinhas, a genética quebrou-se e hoje eu sou orgulhosamente o sócio número 34.044 do maior e melhor clube do mundo, a minha paixão, o Benfica.
No conforto do meu lugar cativo no novo Estádio da Luz, preservo a memória desses golos mágicos e não me recordando das lágrimas de Eusébio na derrota no Mundial de 1966 (eu nasci no dia 5 de Julho desse ano, precisamente 8 dias antes de Portugal se estrear com uma vitória de 3 a 1 contra a Hungria) foi de um lugar bem próximo dali que na noite de 24 de Junho de 2004 e no melhor jogo de futebol que vi até hoje, testemunhei o choro de Eusébio na vitória por penalties contra a Inglaterra em que Ricardo foi herói.
Nessa noite, o menino que ouvia os relatos em Vila Viçosa teve o privilégio de chorar com o Rei Eusébio.
Mas de alegria, claro.
E como se não bastasse a saudade de Eusébio na manhã triste de nevoeiro que hoje me levou até Vila Viçosa, ao chegar à minha terra recebi a notícia da partida do meu ilustre conterrâneo Dr. Joaquim Torrinha.
Temos em comum o berço, Vila Viçosa, o nome de Joaquim Francisco, a profissão de farmacêutico e, acima de tudo, uma sacra devoção à terra onde tivemos o privilégio de nascer.
Partiu uma enciclopédia viva da história de Vila Viçosa, um humanista e Homem de excepção.
Em Dezembro de 2012 enobreceu com a sua presença a sessão de lançamento do meu livro Pomar das Laranjeiras, não supus que esse tão especial abraço que então me deu ficasse também com o rótulo de saudade por ser o último por aqui.
Há manhãs de nevoeiro que têm este condão de parecer tirar-nos os grandes, como se os heróis pudessem morrer…
São e serão eternos na história e em nós.
Mas deixam saudades.

1 comentário:

  1. A memória de um enorme futebolista e de um Homem humilde e de uma simpatia contagiante.

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