segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

A simplicidade do presépio e o aplauso do povo

A cirurgia às cataratas a que o meu pai foi hoje submetido no Hospital da Luz deixou-me com uma vista privilegiada para o Estádio e para a multidão que se despedia de Eusébio.
A cultura dos heróis não se aprende nas universidades, pelo contrário, vive-se na simplicidade que cria a proximidade com todos e que jamais é capaz de dividir algo e/ou alguém.
E os heróis até podem beber whisky ao pequeno-almoço, que bem pior são as bebedeiras da vã e balofa vaidade.
Não sei se o Senhor Dr. Mário Soares se lembrará da tarde do dia 9 de Março de 1986?
Tomou posse para o primeiro mandato como Presidente da República e apesar de ter chamado a Lisboa as estrelas da política internacional, incluindo George Bush pai, na altura Vice-Presidente de Reagan; teve a acenar-lhe a GNR e a PSP que faziam a segurança.
A inveja, a sobranceria e a vaidade levam sempre a estas tristes figuras.
A multidão continua a mover-se lá fora.
O dia ameaça chuva.
Estou sentado na Sala de Espera ao lado da Árvore de Natal e começo a notar a inquietação de duas freiras já muito idosas que estão à minha frente.
Não conseguem encontrar o menino Jesus no pequeno presépio de figuras de pano à sombra da árvore, e de repente, em dia da Epifânia, eu e elas estamos como Baltasar, Belchior e Gaspar, todos à procura do Menino Jesus, mas neste caso sem a ajuda de uma estrela.
Acabam por me ajudar a maior proximidade e também as lentes progressivas que trago sempre comigo: o Menino Jesus estava bordado numa posição que o coloca ao colo de Maria.
As minhas companheiras de presépio riem e agradecem-me muito, afinal eu quando me ponho assim de cócoras já tenho alguma dificuldade em levantar-me.
Não tardam a chamar-me do corredor porque o pai tinha chegado ao quarto e a cirurgia tinha sido um êxito.
Mais uma hora e estamos os dois no carro a caminho de casa. Chove copiosamente.
O Céu quis beijar a terra da simplicidade da campa rasa de Eusébio…
Eu sigo com o meu pai e, chegados a casa, deparamos com a minha mãe a preparar sete frutas para a nossa sobremesa em Dia de Reis: Romã, Noz, Maçã, Banana, Laranja, Morangos e Meloa.
A mesa de Natal vai hoje ser finalmente “levantada”, esta mesa que tem presente a simplicidade do presépio na bênção desta família de sete que é sem dúvida a minha maior riqueza.
Às vezes não vemos Jesus porque O andamos a procurar entre os grandes.
Errado.
Está na grandeza das coisas simples e hoje por aqui em sete frutas e nos nossos sorrisos.
A simplicidade do presépio que é também a simplicidade dos heróis que o povo aplaude espontaneamente no usufruto da sua suprema inteligência que não vai atrás de vaidades.

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