domingo, 26 de janeiro de 2014

O deserto e a tarde pela cidade

Que deserto maior poderá existir do que a errância de um homem solitário que descrente abandona os passos à mercê do desconhecido e dessa baixíssima probabilidade de acerto com o destino e a vontade impostas pela sua alma desassossegada.
E o oásis que nunca chega na sorte que alinha a vida com este sonho tão nosso que a alma sempre encerra, e é inerente à condição de estar vivo e ser pessoa…
Há pombos que esvoaçam em bando rasgando a maresia, essa fresca brisa que empurra a gente para o interior aquecido do café onde o tilintar das chávenas e o ruído das vozes patrocinam uma estranha e desacertada sinfonia.
O balcão corrido é a companhia disponível para os solitários, os que não irão jamais temperar de palavras o quente sabor da bica, os que ficam ainda mais tristes no instante em que se voltam para a parede, viram costas à algaraviada das mesas onde borbulha o calor dos afectos, e ficam expostos e à mercê da antipática mulher desprovida de sorrisos que mais parece uma impessoal máquina de transportar chávenas… e fazer trocos.
Restam os pensamentos para acompanhar a bica.
E resta o amor, que amor mais perfeito não pode existir do que o do homem solitário, aquele amor que existe pela força da vontade e do querer, o amor que até pode nascer da genética de uma pura ilusão, mas que por ser desprovido de nome, rosto ou outros mundanos detalhes… e quiçá defeitos, não vê beliscada a divina condição que o faz eternamente perfeito.
Por muito próxima que a concretização se aproxime da nossa vontade, a forma asfixia e reduz a dimensão enorme que um sonho sempre encerra em si mesmo.
Assentou bem o café ao homem que se devolve às calçadas da cidade e que agora quase inexplicavelmente consegue sorrir.
Os passos ainda seguem errantes…
Os pombos continuam a esvoaçar loucos por sobre a sua cabeça…
Persiste um certo sabor a deserto neste seu solitário passeio pelo domingo da cidade…
Mas faz-se oásis, a sorte que pelo amor mata a solidão e a substitui pela mais legítima esperança.
Afinal já é quase noite e o nascer do sol em breve trará um novo dia, e quiçá seja amanhã… o tal dia.
É sempre pela fé nos sonhos que seguimos, qual coração a bombear sangue pela vida que não pára.
E sorrimos.
Até mesmo quando não acontece nada e em verdadeiro estado de auto-suficiência deixamos que tudo aconteça na intimidade tão secreta de nós próprios.
Bastamos nós, pela força do pensamento e pela fé no amor, para que se prepare a alquimia doce de acreditar que um dia...
A bica às vezes dá uma ajuda.

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