segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

NATAL 1 / O Presépio


As aulas terminavam sempre a tempo de podermos organizar um passeio ao campo onde com os amigos recolhíamos o musgo da face virada a norte das oliveiras mais velhas que encontrássemos no nosso caminho; isto sobretudo nos anos em que o Outono e o Inverno tinham sido generosos de chuva e humidade.
Levávamos cestos de verga para o acomodar em camadas, e nunca deixávamos de competir pela área de algum pedaço que a forma do tronco da oliveira e a nossa arte permitiam que fosse maior que os demais.
Às vezes regressávamos com os joelhos ou as calças rasgadas, fruto destas intrépidas ambições de chegar mais alto e mais longe. Esquecíamo-nos de que é muito fácil escorregar de um tronco pejado de musgo.
A preparação era depois na casa de cada um em recantos próprios da sala ou de outra divisão nobre e acessível a nós e às visitas, e com as figuras que durante o ano guardávamos uma a uma enroladas em pedaços de jornal e devidamente acomodadas em caixas de cartão onde alguém há muito tempo havia escrito “presépio”, para que não fosse necessário andar a palpar todas as caixas da arrecadação.
Em minha casa as figuras eram de barro e tinham sido compradas nos mercados de Quarta-feira ou nas feiras, pelo que, adquiridas em alturas diferentes e ao jeito de uma colecção, criavam algumas bizarrias interessantes como o facto de termos uma ovelha com o volume de seis das outras e o dobro da altura do pastor, o galo ser maior do que a vaca e o burro; ou a casa ser mais pequena do que qualquer figura que supostamente lá morava e tinha saído nessa noite para ir seguir a estrela e ir ver o Menino Jesus nas palhinhas da gruta de Belém.
Colocávamos um celofane verde num orifício da cabana onde por detrás acendíamos uma lâmpada, enrolávamos uma tira de papel prateado em celofane azul para fazer o rio onde a lavadeira se ajoelhava a lavar, recortávamos uma estrela de cartão enrolada posteriormente em papel prateado, polvilhávamos tudo com a farinha do mesmo pacote de onde se fariam as filhós e as azevias para criarmos a ilusão de neve… e a obra ficava pronta.
Não era raro organizarmos “excursões” a casa de cada um dos amigos para podermos espreitar as obras de arte que apareciam ou não junto das árvores de Natal que não eram obrigatoriamente pinheiros. Havia azinheiras, oliveiras ou até medronheiros com o vermelho dos seus frutos poderiam acrescentar alguma originalidade.
Nestas visitas ninguém saía sem trazer um frito de Natal entretanto já preparado para a consoada.
Às vezes aproveitávamos a ida ao musgo para trazer também alguns pedaços destinados à preparação do presépio da igreja de São Bartolomeu. Combinávamos uma tarde, e lá íamos nós invadir as sacristias à procura das figuras bem maiores que as nossas lá de casa, uma busca muito ao género da descoberta de tesouros feita pelos “cinco”; mas à nossa escala muito alentejana.
A boa disposição elevava o nível de risco de disparate, e não foi com surpresa que se constatou o facto de um Menino Jesus ter acabado um dia sem cabeça, num verdadeiro erro de casting pois tal seria mais compreensível com uma figura de São João Baptista.
A profusão de teias de aranha ao redor das figuras também levou a que um dos meus amigos tivesse liderado um movimento anti beijo ao Menino Jesus pelo risco acentuado de doenças que poderiam “colher-se” da pouca assepsia que o assistia durante os meses do ano em que permanecia na sacristia.
Não teve mais sucesso do que o muito recente risco de epidemia da Gripe A.
Voltando a nossas casas e ao redor dos dias todos do Natal…
Cantava-se ao Menino Jesus, fazia-se a festa, retiravam-se os presentes… e os presépios eram desmanchados só depois do Dia de Reis, mas aí já eram as mães que o faziam.
Nunca me lembro de ter desmanchado um presépio e ter sido eu a devolver à arrecadação a caixa com as figuras. 

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