quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Recusar envelhecer por entre “Nancy’s atómicas” e “Bolo-rei de Adão e Eva”


Desço a rampa em espiral do El Corte Ingles de Lisboa, sempre com a sensação de ter sido deglutido por um dinossauro, e não tarda o momento em que estarei munido da minha carta de compras para poder escolher presentes de Natal para as pessoas cujo nome consta numa lista que levo escrita num post-it e que vou riscando à medida que envio “material” para o piso -4, o sítio aonde mais tarde o irei recolher já embrulhado e identificado com o nome do destinatário.
Por entre pisos e subindo e descendo escadas rolantes, apercebo-me que aquele “jogo” do Menino Jesus que chegava de manhã para nos deixar os presentes no presépio da casa de Vila Viçosa, não terminou para mim; e que a posição de fornecedor ou receptor é totalmente indiferente, tal qual a ordem dos factores numa operação matemática de multiplicação.
Eu sei que os pisos estão cheios de espelhos que reflectem este meu ar de quase cinquenta anos, o que no contexto até ganha algum sentido extra pela aparência de Pai Natal; mas a festa é a de sempre.
Na secção de brinquedos surpreendo-me com a nova face da Nancy, totalmente diferente daquela que comprávamos em Badajoz no Simago e que fazia as delícias das raparigas a quem se destinavam. Sinais dos tempos, a boneca foi ao cirurgião plástico e estes ofereceram-lhe um rosto mais quadrado e totalmente “esgazeado”. Uma amiga da minha mãe que há uns tempos resolveu vestir de Nossa Senhora uma boneca da filha e pô-la num oratório como relicário, com esta já não conseguia cumprir com os seus intentos tão devotos.
Depois, eu sofro do mal crónico de não conseguir acertar facilmente com os tamanhos da roupa, com uma tendência super desagradável para adquirir peças de dimensões imensas, o que me expõe bastas vezes ao comentário em forma de pergunta:
- Estás a chamar-me gordo/a?
Desta vez tive isto em atenção e comprei tudo com números mais baixos, com o desconforto no entanto de sentir que estou a oferecer roupa que assentará às pessoas como uma cinta apertada na barriga de uma gorda.
Mais uma vez tive de fazer conversa sobre um assunto que desconheço, e com o i-phone e uma mensagem do meu irmão como teleponto, consegui dialogar com um assistente sobre o “Trash Wheel Playset”, todos excepto o Hambúrguer, sem fazer a mais pálida ideia do assunto.
Estava esgotado e terei de ir repetir a representação num “ToysRus” algures aqui por perto.
Já quase a terminar achei que o Natal exige um bolo-rei em casa, e mesmo sabendo que a consoada me levará até ao Alentejo, lá fui comprar um, antes de recolher as prendas no tal piso -4, ficando a saber que há bolo-rei de maçã…
Desconhecia.
Cheguei a casa já pelas nove da noite com um “bolo-rei normal” e a lista toda riscada.
E o que me consegui rir sozinho entre Nancy’s e bolo-rei ao estilo de Adão e Eva…
Envelhecer?
Pois eu acho que isso é algo que não se quer comigo.
E não será apenas pela doce persistência do meu pai a tratar-me a mim e ao meu irmão pelos “meus gaiatos”, ou então por mérito sagrado de algum elixir de composição secreta que a minha condição de farmacêutico me tenha facultado…
É a magia de acreditar que o melhor tempo é sempre aquele que temos para viver.
Tenho saudades das pessoas que me fizeram os Natais passados e que entretanto já partiram?
Tenho, e muitas.
Mas ressuscito essas pessoas colocando-as na forma intensa de viver o Natal presente com aqueles que entretanto chegaram e que me fazem sorrir.
É a melhor forma de honrar a sua herança.
Eu até estou apaixonado e adquiri ontem um presente especial que nos Natais passados não tive o privilégio de comprar…  

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