domingo, 13 de novembro de 2011

Ai, Timor!

Passaram ontem vinte anos sobre o massacre ocorrido em Dili, Timor Leste, no Cemitério de Santa Cruz, quando as forças militares Indonésias disparam brutalmente sobre civis.
A presença no terreno de alguns jornalistas internacionais, permitiu que o mundo espreitasse a repressão de que os Timorenses eram vitimas desde a ocupação Indonésia ocorrida no período em que Portugal conjugava o verbo descolonizar no presente do indicativo.
Quando comecei a ouvir falar de Timor, recordo-me que a palavra já rimava com guerra.
No final dos anos setenta, chegaram ao Seminário de Vila Viçosa, alguns rapazes que expressando-se no mesmo Português que nós, nos falavam de uma terra distante, em guerra, e a viver o sofrimento e a dor de famílias desfeitas, separadas entre a própria guerra e a miséria oferecida pela pátria da língua mãe, ali algures para os lados do Jamor.
Foi o meu primeiro contacto com Timor.
Anos mais tarde, numa tarde e serão de Julho de 1984, com o objectivo de participar num Convívio Fraterno em Proença-a-Nova, fiz a viagem desde Vila Viçosa no carro do então Padre Basílio do Nascimento, um dos responsáveis pelo Seminário de Évora, numa boleia patrocinada pelo nosso amigo comum, o Padre António Simões.
Durante a longa viagem e também o jantar que fizemos em Portalegre pelas bandas do Semeador, ouvi falar de um povo unido a nós pela língua e pela fé, que lutava com a força das armas e sobretudo pela força da própria fé, para que um dia pudesse ser dono do seu destino, deixando de ser escravo dos poderosos senhores do mundo.
Pela primeira vez ouvi falar de Xanana Gusmão, Ramos Horta ou D. Ximenes Belo, heróis maiores de Timor, respectivamente, pela força das armas, da diplomacia e da fé, unidos pela convicção e pelo muito querer a liberdade.
Comecei a interessar-me por Timor, a ler e a ouvir aqueles que nunca deixaram cair a sua causa no esquecimento, sendo neste campo obrigatória uma referência a D. Duarte de Bragança, de tal forma que as imagens do massacre de Santa Cruz apanharam o mundo de surpresa, mas a mim nem por isso. Confirmavam apenas o que há muito eu sabia.
Mas o mundo despertou para esta causa e o sangue dos heróis de Santa Cruz, foi alerta e a semente da liberdade cuja conquista seria concretizada com a independência a 20 de Maio de 2002.
E talvez até as ave-marias em Português, rezadas em fundo no filme do massacre, tenham sensibilizado o Papa João Paulo II, para a injustiça da ausência do seu gesto de beijar o solo Timorense, distinguindo-o do solo Indonésio, quando visitou Timor em 12 de Outubro de 1989.
Do massacre de 1991 até à independência em 2002, há um longo caminho que é feito de esperança e temperado pelo crescendo da revolta ao nível global para a causa deste pequeno país de heróis.
O Prémio Nobel da Paz atribuído a D. Ximenes Belo e Ramos Horta em 1996, confirma que a causa de Timor jamais iria cair como antes no esquecimento.
Os acontecimentos de 1999 que culminam com a entrada da ONU em Timor-Leste, assumindo os anseios deste povo como um dos seus objectivos e do mundo, oferecem a Portugal a oportunidade da união por uma causa.
Como muito poucas vezes tinha antes ocorrido, colocaram-se de lado as divisões políticas, sociais, religiosas e de qualquer outra espécie, e em vigílias, manifestações, cordões humanos, trajes brancos, velas acesas nas varandas e janelas, Portugal uniu-se por Timor e pela conquista da liberdade, permitindo o acerto da História.
Nunca mais falei com D. Basílio do Nascimento, entretanto nomeado Bispo e também ele num agente activo e herói no caminho para a liberdade do seu povo, mas se um dia o puder fazer não perderei a oportunidade de lhe agradecer o mote que me deu naquela viagem entre o Alentejo e a Beira Baixa, para a lição de que o sonho e a fé são tudo quanto necessitamos para ter força e ganhar a convicção que nos leva ao que queremos ser e até onde queremos estar.
E já agora, não menosprezem qualquer segundo das vossas vidas, porque até aquilo que parece mais simples e vulgar, como uma simples e banal viagem de automóvel, pode vir a transformar-se num dos momentos mais fantásticos e memoráveis da nossa existência.

Sem comentários:

Enviar um comentário