sábado, 24 de setembro de 2011

A “velha” Europa

Numa das manhãs desta semana, cruzei-me na Área de Serviço de Pombal, na A1, com o casal Mário Soares e Maria Barroso, que tal como eu e as restantes pessoas, se encontravam ali a descansar a meio de uma viagem para algum sitio a norte.
Confesso-vos que nunca fui fã e adepto do Soarismo, nem nunca me senti identificado com o clã e a família, de sangue e política, que sempre gravitou à volta de Mário Soares, em jogos mais ou menos subtis pela conquista do poder das mais variadas instituições, mas tal não me impede de reconhecer nele um dos ícones maiores do Século XX Português, e, de entre os Portugueses actualmente vivos, reconhece-lo como aquele que mais positivamente influenciou a nossa história recente, pela conquista da liberdade e pela nossa integração na Europa.
Se há coisas que a vida nos oferece é esta virtude de aliviar o absoluto das certezas, e também a capacidade de aumentar o enfoque no que é realmente importante e positivo, e por isso, eu que não sou um Soarista, não pude deixar de sentir uma emoção especial na hora em que me cruzei de perto com Mário Soares.
O seu porte e afabilidade são os de sempre, procurando os olhares dos demais para sorrir e cumprimentar, apreciando simultaneamente o cumprimento e a saudação de todos os que passam, mas a carga e o peso dos anos tem pelo menos no seu aspecto uma marca inevitável de fragilidade, que não me parece que exista no seu pensamento, tal a lucidez e pertinência que reconheço a algumas das reflexões feitas e publicadas nos últimos tempos.
Para além disso, tanto ele como a sua mulher, transpiram a tranquilidade das pessoas que vivem bem consigo próprias, as pessoas que fizeram da vida exactamente aquilo que a vida sempre lhes pediu que fizessem.
Eu tinha acabado de fazer 170km a ouvir falar de Jardim, da Madeira, de buracos no orçamento, da troika, da Grécia e do desmoronar do Euro, das hesitações dos líderes europeus, e este encontro com Mário Soares, um dos grandes entusiastas e construtores da Europa unida, confrontou-me automaticamente com esta ideia de que a Europa sem fronteiras que foi sonhada e construída por uma geração, dificilmente irá sobreviver no futuro.
A Europa da União parece ter os dias contados porque a geração de tecnocratas e políticos fabricados nas incubadoras da própria política, Homens interessados na sua própria sobrevivência e que não vêem muito para além do seu umbigo, não soube e não sabe estar à altura da geração dos líderes que emergiram nas trincheiras da conquista da liberdade e que tiveram a coragem de em nome do colectivo, lutar e ir sempre em busca dos seus sonhos.
A Europa definha, consequência da falta de liderança e ousadia.

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