quarta-feira, 22 de abril de 2015

É tão fácil descobrir a primavera por entre tudo o que nos acontece


Na janela da cozinha está um vaso de cartão de onde brotam viçosos coentros. O “kit” composto por vaso, sementes e terra foi-me oferecido no Natal pela minha querida amida Teresa Lopes e a “sementeira” ocorreu durante um pós-jantar de família lá em casa, com o meu sobrinho João muito entusiasmado pelo facto da actividade agrícola ter lugar sobre a mesa da sala, ainda que devidamente protegida.
Já me estreei a comer uma Alentejaníssima açorda preparada com os ditos coentros.
Sempre que saio de casa pela manhã trago no bolso um guardanapo de papel com migalhas de pão do pequeno-almoço. Um melro muito simpático espera por mim no relvado de acesso ao parque de estacionamento e eu partilho com ele a primeira refeição do dia.
Já se aproxima a menos de um metro e eu até o baptizei com o mesmo nome da pessoa que por via do pensamento toma o pequeno-almoço comigo todas as manhãs. Chamo-lhe…
Na estrada entre Leião e Porto Salvo, onde eu passo todos os dias, há um campo que por esta altura é leito para uma seara de trigo que cresce a olhos vistos e que eu já vejo bailar ao sol todas as manhãs.
Sinto-a como uma privada nesga de Alentejo que veio até aqui para me abraçar.
E é tão bom ver o Alentejo e lá ao fundo o amor a tingir o horizonte.
A noite passada, como em todas as noites, adormeci ao som das palavras que me mandaste escritas numa mensagem e que li em voz alta como cantiga do privilégio de um ninar que eu sei jamais ter fim.   
E adormeci sem me lembrar de absolutamente mais nada; só me recordo que sorria.
A sorrir…
Da mesma forma que acordo, rego os vasos, falo com o melro e me entrego ao abraço da seara de trigo.
Quando nós amamos e nos sentimos amados, é tão fácil descobrir a primavera por entre tudo o que nos acontece.

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