quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Um alegre serão no countryside

Há um carvalho imponente e já sem idade no centro do relvado onde dois corvos se entretêm indiferentes à minha passagem sinalizada pelo ruído dos passos sobre a brita que serve de tapete ao caminho.
São quase seis horas da tarde e à semelhança do que aconteceu durante todo o dia, não há sol. A Inglaterra no seu melhor e este nevoeiro continuo que parece ter sido encomendado para manter verde o relvado que é afinal uma enorme clareira na frondosa mata composta por indefinidas árvores.
Segui o conselho do empregado do hotel e faço a pé as cerca de duas milhas que me separam do centro da cidade onde irei jantar, com a recomendação extra de tomar uma cerveja no primeiro pub que encontrar à direita ao entrar na rua principal.
A distância faz-se curta pela beleza da paisagem e da gente no regresso a casa num ambiente que me devolve para as aventuras da Zé, do David, do Júlio, da Ana e do cão Tim, os famosos cinco da Enid Blyton, cujas aventuras consumi sofregamente nas minhas tardes passadas na Livraria Escolar da D. Joana.
Mesmo já com este lusco-fusco, a ver se eu não fazia por aqui um piquenique caso tivesse trazido um cesto com limonada, sandes de carne assada e scones...
E entrar no pub é mesmo uma excelente opção que concretizo quando por ali passo, com o triplo objectivo de me refrescar, de descansar as pernas e de passar o tempo até à hora do jantar.
Sou desde logo cumprimentado de forma simpática por uma dezena de clientes que ” iluminados” pelas canecas de cerveja aguardam o jogo do Chelsea que começará em breve.
Sento-me ao balcão e peço a minha cerveja ao empregado que é fã do Mourinho e é muito simpático até ao momento em que afirma que eu não tenho cara de Português, fazendo esta afirmação com ar de fazer-me um grande elogio… e favor.
Devolvo-lhe um olhar furioso.
Por favor, não quero ter cara de mais nada a não ser daquilo que sou com orgulho: Português.
Começa o jogo mas aproxima-se a hora do meu jantar e pouco depois tenho de sair caminhando pela cidade em que as ruas são definidas por pequenas casas brancas ou cor de tijolo com apenas rés-do-chão e excepcionalmente um primeiro andar.
Já é tarde quando regresso ao hotel aproveitando a boleia de um colega que tem de abrandar algures a meio do percurso para que uma raposa possa seguir o seu trajecto.
O empregado do hotel está no seu posto e eu agradeço-lhe as sugestões.
Pergunta-me:
- Viu a pequena vinha na encosta por detrás do hotel?
Confirmo e ele surpreende-me de forma deliberada:
- O dono tem uma pequeníssima produção de champanhe que foi considerado o melhor do mundo.
Eu questiono:
- O melhor do mundo?
E ele corrige:
- Bem, o melhor do mundo... o melhor do Reino Unido.
Compreendo-o.
Afinal, o mundo, o nosso mundo, tem as dimensões que lhe quisermos dar.
Despeço-me e vou para o quarto que tem uma cama fantástica encostada a um dos cantos, só oferecendo acesso pelos pés e por um dos lados.
Há muitos anos que não dormia numa cama nesta posição. Se bem me lembro, desde os tempos em que menino e moço ia dormir a casa da minha avó Natividade nas raras noites em que os meus pais resolviam ir divertir-se no baile da Sociedade Artística União Calipolense, e em que a minha avó, sendo inverno, me punha tantos cobertores na cama que a minha cabeça ficava parecida com a de uma tartaruga a espreitar para lá da sua carapaça.
Deito-me e adormeço embalado por estes pensamentos e inevitavelmente também por aqueles que habitam nos planos de futuro que são legitimados pelos sonhos.
Num fim de tarde e inicio de noite algures nos arredores de Londres, um pouco daquilo que somos todos nós.
Somos a preciosidade única composta pela inigualável reunião de uma história, de um presente e de todos os sonhos do futuro, com os espaços que foram ou tornámos nossos, e também com todos aqueles com quem partilhámos os dias.
O tempo, o espaço e toda a gente que nos fez assim, na certeza de que morreremos no dia em que matarmos a criança que somos e fizermos abortar todos os sonhos, principalmente os que brotam dos afectos maiores.
Dormi tranquilo e juro-te... sonhei contigo.

2 comentários:

  1. Loved it !!
    It´s always nice to be able to read such an excelent text on a late evening before going to bed. One can dream about being there too. Um abraço Paulo Penha

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  2. Comigo em NY cada local que entrava diziam-me sempre que devia ser Italiano ou Espanhol... eu de acabelo aloirado na altura ( foi escurecendo com a idade, mas na altura era loiro.. já lá vão uns 18 anos), só pensava... Italiano eu? Espanhol? mas porquê? porque razão? até hoje não sei porque afirmavam tal coisa, mas caramba não gostava mesmo. Sempre tive orgulho de ser Português. P

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