terça-feira, 15 de outubro de 2013

A casa dos segredos

Há alguns anos, algures pelo inicio dos anos noventa, deliciei-me com uma encenação de “A gaivota”, de Tchekhov, no Teatro da Graça, ali para as lados da Voz do Operário. A actriz Alexandra Lencastre encarnava então a Nina Mihailovna, uma das personagens centrais do enredo que o autor definiu como uma comédia e os críticos e o público rotularam de tragédia, o que não é de todo usual.
Recordo-me da excelente performance da actriz.
Por esses anos de noventa, Portugal rompia com o monopólio da RTP e aprovava dois canais privados de televisão. Durante o processo de escolha destes dois canais, para o qual se apresentaram três projectos, a Igreja Católica, à boleia do sucesso da Rádio Renascença, reclamava que uma das licenças lhe fosse atribuída, o que veio a concretizar-se, e a TVI, canal de inspiração cristã, emparelhou com a SIC nestas novas estações com marca não estatal.
Ontem ao serão, e durante um processo desesperado de zapping, daquele que até faz deitar fumo ao comando, juntei estes dois pedaços de memória quando vi a Alexandra Lencastre a apresentar na TVI um programa de “A Casa dos Segredos”.
Na guerra pelo sucesso comercial que deriva dos maiores níveis de audiência, a TVI há muito resolveu ir de encontro aos mais básicos instintos voyeuristas dos cidadãos colocando-se na posição de montra de bordel, algo inédito num país onde os ditos para além das vidraças também tinham janelas com tabuinhas.
Pelo caminho, a inspiração cristã ficou definitivamente arrumada e quem antes apoiou de forma enérgica a existência de um canal para a Igreja Católica deve sentir-se agora como um espectador que tendo comprado bilhete para a Traviata no São Carlos, chega lá e só pode assistir a um show da Cicciolina.
A única relação que a TVI mantém com o divino é o “valha-me Deus” que sai da boca dos espectadores quando confrontados com estas manifestas exibições de mau gosto.
E pela sua sobrevivência, os grandes actores surfam na onda e numa televisão cristã… vendem a alma ao diabo.
Jamais me assumirei como um apóstolo do apocalipse vendo nestes “perversos” percursos uma aproximação ao fim do mundo, muito longe disso, mas não posso deixar de registar como a frivolidade, a banalidade e o mau gosto vão dominando uma certa estética patrocinada pelo bom senso.
Pela minha parte, vou dando uso ao leitor de DVD’s.

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