sexta-feira, 25 de outubro de 2013

As malditas comadres

Em algumas ruas mais estreitas das nossas vilas e cidades, e porque as chaminés se constituíam muitas vezes como verdadeiras caixas de som daquelas que existem em palcos destinado à ópera, era frequente a sua utilização com vista à escuta de conversas que reproduziam a vida alheia.
O método e os conteúdos escutados acabavam muitas vezes por conduzir a zaragatas que nunca iam para lá das ofensas verbais com mais ou menos puxões de cabelos à mistura.
Conta-se que um dia e numa briga entre duas jovens casadoiras que estavam a ser apoiadas pelas respectivas mães que se constituíam como as suas fervorosas claques, uma das progenitoras terá gritado à sua cria num tom entre o conselho e a ordem:
- Filha chama-lhe p... antes que ela te chame a ti.
Num tempo em que não havia televisão estas brigas serviam inclusive para distrair e animar as ruas até porque os envolvidos, mais cedo ou mais tarde acabavam por reatar as suas normais e agradáveis relações continuando amigos.
Ao ler o jornal e depois de constatar que Catroga acha que Sócrates deve ser julgado, da mesma forma que Soares acha que Cavaco deve ser julgado, e depois de o PS ter dito que andava a ser escutado e o Presidente ter dito que também andava a ser escutado...
E depois de lido que Basílio Horta considera que um orçamento de Estado feito por Gaspar carregaria em si uma maior sensibilidade social e que Sócrates terá convidado Passos Coelho para vice-primeiro ministro do seu segundo governo, o minoritário...
Só me poderia mesmo ter recordado das mulheres das ruas estreitas e dos becos, com todo o respeito por elas que de todo merecem o desprestígio de tal comparação.
As brigas parecem ser aconselhadas pelo "chama-lhe ladrão antes que ele te chame a ti" e no final, mais cedo ou mais tarde, acaba tudo novamente aos beijinhos.
Bem me parece a mim que todos se conhecem demasiado bem e que a diferença está apenas no tom do papel que embrulha a comum desonestidade que nos oferecem diariamente.
De qualquer forma e como medida preventiva, não vão as comadres incendiar os ódios e descobrir mais verdades, e não vá a justiça lembrar-se de começar a funcionar, não parece de todo má ideia pensar no alargamento da prisão da Carregueira, esse autêntico jazigo do nosso regime e dos pecados do novo-riquismo que fabricou os homens de sucesso.
Alargamento… e já agora a montagem de um recinto anexo no exterior para colocação de roulottes de comes e bebes pois há por aí muitas eleições à porta e a malta merece comemorar as vitórias com o mínimo de “dignidade”. 

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