terça-feira, 8 de outubro de 2013

Os contrastes no velório da dignidade

No dia em que o número de mortos resgatados do mar de Lampedusa, na sequência do naufrágio da passada semana, ultrapassa já as duas centenas, uma amiga recebeu o conselho de uma senhora africana no sentido de se deslocar a Paris, aos Campos Elíseos e à loja da Louis Vuitton, para comprar adereços para a sua cadela de pequeníssimo porte, uma vez que a referida loja tem uma secção especializada em adornos para animais de estimação.
A cliente Louis Vuitton aterrará por certo centenas de vezes nos aeroportos de Paris em viagem iniciada no continente de que é natural, a mesma origem das pessoas que se amontoaram numa embarcação insegura em busca da ilha mediterrânica do arquipélago das Pelágias, Lampedusa, em termos geográficos, parte do território africano, mas politicamente o ponto mais a sul da Europa. Uma ilha cujo nome ironicamente nos transpõe para a ideia de lâmpada, de luz.
A “madame” desembarcará vestindo padrões de leopardo ou tigre em roupas contendo as etiquetas de grandes costureiros, enquanto os candidatos a imigrantes que conseguiram chegar à ilha o fizeram sem roupa, depois de as terem oferecido como combustível na emissão de um pedido de socorro perante o iminente naufrágio.
O mundo e os seus contrastes…
Mas desengane-se quem julga que terá de abandonar as fronteiras do país para comprovar tais situações.
A Avenida da Liberdade é uma das artérias mais conceituadas do mundo que tem as suas fachadas enfeitadas pelas marcas mais caras do universo, e diz-se que outras tantas marcas aguardam em lista de espera para se instalarem nos seus edifícios.
É agradável caminhar pela Avenida e ver as montras, faço-o muitas vezes e a última foi ontem, mas é bom que o façamos com o cuidado de ir olhando para o chão pois se não o fizermos termos fortíssimas probabilidades de tropeçar nas improvisadas camas dos sem-abrigo.
Por ali, a luz de cabeceira de muita gente, é a montra da Cartier, da Boss ou da Prada.
O mundo e os seus contrastes que inundam de vergonha a humanidade, aquelas gritantes diferenças que acreditámos jamais sobreviveriam à passagem para o nosso terceiro milénio.
Dirão os resignados que sempre existiram pobres e ricos justificando assim a sua inacção.
Digamos nós, os insubmissos e que nunca tememos a alcunha de loucos, que esta vergonha não é obra do acaso, tem responsáveis e que eles devem ser punidos.
Quem gere as nações com o objectivo único de se governar a si próprio e engrossar as suas contas bancárias, e aqueles que pela sua incompetência na gestão dos bens comuns obrigam as nações a pagar os juros de elevadíssimos empréstimos, bóias financeiras de elevado custo disponibilizadas pelas instituições internacionais; são indiscutivelmente réus que importa “sentar” na lista de culpados.
E em Portugal o preço da incompetência está a ultrapassar os valores admissíveis ferindo de morte a sobrevivência e a dignidade dos indivíduos através de um ataque asqueroso sobre os rendimentos de pessoas vulneráveis e de um vil ataque sobre classes profissionais injustamente classificadas como incompetentes e dispendiosas.
A incompetência de quem nos governou e governa, também leiloou a soberania a preço de saldo e já não somos nós quem manda no nosso próprio destino.
São os contrastes no velório da dignidade do Homem em capela enfeitada pelas coroas de flores da mentira e da hipocrisia com o “alto” patrocínio dos próprios assassinos, mestres de palavras de boas intenções.

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