segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Um curto e simples passeio pelo Outono

O frio de Outono que chegou durante o fim-de-semana, convidava a permanecer tranquilamente junto à braseira com o alto patrocínio de uma boa leitura, aguardando o momento quente em que o chá fumegaria na chaminé e o apito da chaleira desse o pontapé de saída para a merenda.
Foi Novembro que nos fez sair.
Pelas placas de mármore que perpetuam nomes e rostos, deixámo-nos guiar por um roteiro de afectos, percurso de encontros facultados pelas memórias e celebrados a Padres-nosso e Ave-Marias.
Eu e a minha mãe, os dois sós, deixámo-nos ir de braço dado rebobinando vida, soltando palavras nesse panteão do meu povo que na tarde fria estava deserto e à mercê de tantas histórias com que fizemos presentes todos os nossos.
É entre muralhas e em chão nobre, a terra que eterniza a minha gente, à sombra da fé na Senhora da Conceição, a rainha e a proa de uma nau de heróis entregues ao sono perpétuo no Olimpo dos simples.
Já de saída lanço um olhar a Florbela e é com ela que subo as escadas para o adro da igreja lamentando que a muralha não me permita espreitar o pôr-do-sol que aquela hora, mágico se anuncia por detrás do Paço:
“Ó minha terra na planície rasa,
Branca de sol e cal e de luar,
Minha terra que nunca viu o amor
Onde tenho o meu pão e a minha casa…”
E não tarda muito até ao momento em que subindo pela lateral do lado do Santíssimo, eu estarei com a minha mãe aos pés da Senhora da Conceição.
Jamais saberei o dia em que pela primeira vez ali estivemos os dois, mas foi por certo algures em Julho de 1966, que a Maria Inácia nunca foi de deixar de cumprir esse mandamento que em Vila Viçosa faz as mães oferecerem o seu filho à Senhora na primeira vez que saiam juntos de casa.
Passaram quarenta e sete anos e estamos os dois ali na meta de um roteiro de memórias numa tarde fria, na festa de um amor eterno de mãe e filho, a traçar planos de futuro que vamos partilhando quando descemos pelo lado de São Pedro, e depois quando avistando os medronheiros pela encosta acima, dirigimos os nossos passos para o carro que deixámos debaixo de uma oliveira.
Havia azeitonas maduras sobre o carro quando arranquei em direcção às Portas de Évora onde acabei por parar, não resistindo a saborear por segundos a beleza do Outono no Pomar das Laranjeiras.
No espaço de uma hora: memórias, afectos, amor, fé e poesia.
Um tão curto pedaço de tempo e afinal, tudo o que mais importa numa vida inteira.
O passado que nos fez grandes, o presente que saboreamos intensamente e o futuro, de cujos planos são a prova de estarmos vivos.
Tudo numa tarde fria de Outono e no privilégio de um passeio com a minha mãe, de braço dado e na ilusão de que sou eu quem agora a ampara… como se pudesse existir melhor amparo do que o do seu olhar que eternamente me grita: amor?
Há momentos perfeitos porque tecidos pela maior felicidade do universo.
E o tear?
Está sempre à mão. É a simplicidade. 

Sem comentários:

Enviar um comentário