sábado, 23 de novembro de 2013

O inferno “d’antes” e de agora

Se este país já vai sendo ele próprio um inferno, porque o que resta de paraíso refere-se apenas à componente fiscal e destina-se a um grupo muito selecto e altamente elitista, não é difícil escolher a que será a imagem mais infernal da semana.
E aí, imaginar a Margarida Rebelo Pinto e o Prof. César das Neves a brindarem com Pepsi a uma mesa de um restaurante de bifes gerido pela Isabel Jonet, estabelecimento dedicado a uma clientela de âmbito muito familiar e tendo como relações públicas a Bárbara Guimarães, um espaço decorado ao jeito de marquise com fotos de Passos, Portas, Cavaco e Maria, Seguro, Sócrates… num revisitar da Família Adams, e onde os plasmas distribuídos pela sala vão transmitindo a Casa dos Segredos e os programas da Cristina Ferreira, da Júlia Pineiro, do Jorge Gabriel e do Nuno Eiró a apresentar o Leonel Nunes e o seu êxito “Porque não tem talo o nabo?”… ganha a qualquer outro inferno que possamos imaginar.
E o que restava de paraíso?
Os anjos da guarda (assim como os da polícia) fizeram greve, manifestaram-se e foram trepar a escadaria que dá acesso aos deuses instalados nos seus tronos, ameaçando-lhes o conforto. Comprovou-se mais uma vez que só Jesus os consegue pôr na ordem mas mesmo esse é só um, anda entretido com a “Champs” e até acabou em tribunal e condenado a um mês de ausência da “catedral”.
Os arcanjos celestiais, Miguel, Rafael e Gabriel, renderam-se e tomaram todos, o apelido “Carreira”, pelo que as aleluias e os glórias foram todos trocados por ritmadas baladas de fazer chorar as pedras da calçada e fazer enlouquecer as “Marias” todas da terra, virando as peregrinações mais para os Coliseus ou para o Pavilhão Atlântico do que para qualquer santuário nacional de maior ou menor relevo.
O purgatório, que ainda permitia alguma esperança de paraíso após alguns anos de subsídios de Natal e Férias, foi desmantelado por recomendação do Memorandum de Entendimento com a Troika e substituído directamente pelo inferno, com o objectivo de equilibrar as contas públicas.
Em auto de fé onde se esturricaram os professores em processos sem culpa formada, os “doutores da lei” aproveitam o fogo e “mataram” juízes na praça pública, e o juízo final (do orçamento e não só) é agora assegurado pelos financeiros que a todos aplicam a pena máxima do sofrimento e da escassez, condenando-nos ao “aguenta, aguenta”.
Milagres? Já não há, à excepção da raspadinha, do Euromilhões ou das chamadas de valor acrescentado que as televisões convidam a fazer directamente para os seus cofres.
Santos? Continuam por cá mas agora sobretudo os membros do ramo Angolano da família e muito mais entretidos a comprar empresas e lojas de luxo na Avenida da Liberdade, do que a fazer qualquer outra coisa em prol do desenvolvimento do povo.
Velas? Continuamos a usá-las mas cada vez menos nos altares pois acabam por nos fazer muito mais falta em casa para nos oferecer alguma claridade quando os Chineses da EDP nos mandam cortar a electricidade por falta de pagamento.
E neste deserto (de ideias e de esperança), com o povo em fuga e sem que qualquer “mar” (vermelho ou de qualquer outra cor) se abra para nos deixar passar, não admira que um homem de trinta anos que marque três golos num jogo de futebol seja convertido numa estátua dourada, o “bezerro de ouro” do século XXI.
No fundo, aquilo que nos faz falta, mesmo, e aquilo que realmente pode fazer a diferença a nosso favor, é um Moisés que desça do monte com as tábuas da lei (não confundir com os decretos assinados por mentecaptos) e nos conduza até à terra prometida fazendo-nos esquecer os tempos de escravidão da Alemanha, perdão, do Egipto.

Sem comentários:

Enviar um comentário