quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Zé Maria

Já que gozo da fama de ter boa memória (de elefante, segundo o nosso amigo Manuel), com toda a legitimidade tiro dela o proveito, e desde muito cedo me recordo de te ver pela nossa Vila Viçosa.
E talvez a memória mais longínqua me venha da missa das dezoito horas de domingo na Igreja de São Bartolomeu que ambos frequentávamos com as nossas mães. Já nem sei há quantos anos e acho até que só eu é que me recordo dessa missa.
Desde aí fomos crescendo e foi mais tarde no grupo Sementes de Esperança e nos Convívios Fraternos que acabámos por nos cruzar de uma forma mais intensa e demos lugar à amizade…
Tu tocavas viola e quase nos davas com ela na cabeça quando as nossas vozes (de cana rachada) frequentemente saiam do tom; fazíamos teatros e tu até apresentaste uma réplica do “1,2,3” que foi ganha pelo meu pai em parceria com a mãe dos manos Fradique; imitámos o Herman na "Jaquina, Jaquina, Jaquina", em que eu fazia a Assalariada Rural e tu a Doméstica; fazíamos letras alinhadas com o Rock lusitano da altura e acabávamos a cantar coisas do género: “E não me irrites oh oh, e não me irrites oh oh, se não… eu mordo-te uma orelha”; dançávamos nas festas de garagem por entre os desgostos de amor das nossas amigas; nas camaratas dos convívios e após a ingestão de feijoadas, atribuíamos ao Almeida Garret obras que ele definitivamente não tinha escrito…
Depois fomos estudar para Estremoz. Íamos de automotora com assentos de madeira e disputávamos o lugar perto do motor por ser o mais quente, passávamos as madrugadas à conversa no “Águias d’Ouro”, jogávamos matraquilhos no “Convívio”, e não havia vez nenhuma que passássemos pelo túnel antes da estação, sem que um de nós roubasse o chapéu que a Guida Paulino usava para ser moderna…
Casaste com a Manuela e foste viver para a casa onde tive as melhores sessões de “Trivial Pursuit” (e tu sempre te recusaste a aceitar que o que dá a mostarda é a mostardeira), e recordo-me de estarmos na esplanada da “Cambaya” aí pelo verão de 1991, a ver a pequena Marta, em fase pré-parto, a dar pontapés que sobressaiam no vestido da mãe, uns anitos antes de eu inventar títulos de “Barbies” que a deixavam louca ou de lhe chamar “Marta Gouveia – Miss Portugal 1979” e ela me responder: “eu não sou Golveia”…
Foste estudar para Faro e vieste de lá engenheiro, partilhámos viagens e muitos fins-de-semana, comemos e bebemos como ninguém consegue fazer uma ideia, cimentámos todas as nossas cumplicidades de vida, de fé…e sobretudo, e isso ninguém nos tira, demos das melhores gargalhadas que é possível dar.
Cumpres hoje cinquenta anos.
Sei que o melhor que te posso oferecer para além da minha amizade que é imensa, que me enche de orgulho e que será eterna, são estas memórias que nos fazem sorrir e, quiçá aqui e ali, fazem aflorar ao rosto algum vestígio húmido de saudade.
És um dos melhores exemplos de perseverança que carrego na minha existência e admiro-te por essa abolição da palavra “desistir” que fizeste na tua vida, ao mesmo tempo que “lutar” se tornou o teu verbo favorito e mais frequente.
Sei que carregas os genes da tua mãe, por certo a pessoa que conheço que mais se aproxima da heroína a que um dia Bertolt Brecht designou por “Mãe coragem”, tens o privilégio de partilhar a vida com uma grande mulher e tens uma filha fantástica que vai dar continuidade a esse ramo dos “Coragem” que tu próprio encarnas.
Sei que o próximo meio século vai ser para ti um sucesso porque se és bom a pintar com carvão e aguarela, és muito melhor a fazer da tua vida aquilo que ela é: uma obra-prima.
E despeço-me com aquele abraço de parabéns, informando-te que estás dispensado de imediatamente a seguir à leitura deste texto, cantares a tua costumeira:
“É boa, é boa, é boa sim senhor, se não sabes outra melhor canta essa que essa é boa, é boa…”
Até domingo para a festa do cozido.

1 comentário:

  1. Olha! Quando se quer dizer algo e não se consegue o tema vai mal! tanta cena que nem sei. Adorei este texto e foi muito interessante ler e rever toda a vida que passou pela frente. Recordo de facto muitas aventuras, velas viagens, canções, alegrias, tristezas partilhadas. Vejo-me antes dos sementes e vejo-me agora. As verdadeira vida e amizades começaram aí. Obrigado pela dedicatória. É sempre bom ouvir os grandes homens falarem de ti. Grandes homens dizem coisas sérias que devem ser levadas a sério. A sério? A vida é séria? ok

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