segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Ausência


Nós sabemos bem que a ausência impõe a dor que persiste sobre a própria morte, tornando-nos cadáveres dentro do corpo consciente e que ainda respira.

Aquele adeus ao fim da tarde depois de um chá frio no Chiado...

O adeus é uma prece ardente ao tempo, e eu acreditei que ele seria capaz de me resgatar do teu mundo onde às vezes me sentia perdido.

Julguei ser fugaz o silêncio que eu trouxe desse instante, e que a solidão se dissolveria aos poucos nas lágrimas das noites passadas de braços vazios.

Pelo acaso, passei por ti às vezes nas ruas da cidade, e em todas ensaiámos ser desconhecidos, mas sempre por entre a doce traição dos olhares.

Passaram-se anos, demasiados anos segundo a dor, o silêncio e a solidão que persistiram; até há pouco.

Eu nunca deixei de estar sentado no teu mundo, ali sozinho bebendo as palavras de Eugénio e de Sophia nos livros que me deixaste à cabeceira.

O amor quando nos nasce assim do sonho é impenetrável ao tempo. Nada mexe como numa manhã de verão em que não corra o mínimo sopro do vento.

E eu quero ficar para sempre aqui sentado ao pé de ti, porque mesmo que às vezes me sinta perdido pelas horas que parecem não ter fim, eu sei meu amor que quanto mais duro e difícil for o caminho, melhor gosto terá o instante de chegar... a mim.

 

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