quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

É hora de resistir


A terra onde brincámos e de onde o limoeiro tomou alento e inspiração para namorar com o sol, guardará para sempre a memória dos traços que lhe oferecemos quando usávamos o pedaço de um tronco ou de uma pedra, para dar forma ao mundo que inventávamos.

No nosso sonho não cabiam fronteiras.

E a casa de tijoleira ao canto do bar da escola guarda ainda o eco dessas tardes em que o pudor sucumbia perante a força dos sentidos, deixando que andasse à solta, um jeito tão nosso e tão livre de falar de amor.

Saltávamos as convenções e jurávamos jamais deixar que as fronteiras se interpusessem entre os nossos beijos.

Quaisquer fronteiras.

E o Deus que levávamos connosco para a margem das ribeiras onde o poejo se espreguiçava de odores pelas manhãs do sul, era afinal a expressão maior da vida e desse mesmo amor.

Um Deus lembrado em palavras e acariciado por Padre Nossos, mas que jamais será bandeira de alguém ou de alguns, porque Ele é o universo inteiro.

Acho que nunca nos passou pela ideia que o vento forte regressaria, como descrito nos livros de História, para apagar os contornos que tomávamos pela liberdade de tudo aquilo que ousávamos sonhar.

Também jamais pensámos que alguém nos traísse os beijos, impondo-lhes regra de género, credo e cor; ou que alguém separasse Deus do Seu projeto único de um eterno amor.

Homens de mão esquerda sobre a Bíblia e a mão direita à solta a matar a liberdade e a trair a fé.

Oxalá a nossa fé persista e consiga galgar connosco este tempo que rasga a terra com os alicerces dos muros e das fronteiras, matando à fome a esperança... e os limoeiros.

É hora de resistir.

 

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