terça-feira, 26 de maio de 2015

Conheces o Camões?


Num dos dias da semana passada fui com o meu livro “As bolachas mágicas da Avó Inácia” até à sala de um infantário onde estavam cerca de quarenta crianças de quatro anos.
Todos de bibe azul aos quadradinhos e muito alinhados, ouvi-os cantar a canção do bom dia já predispostos para me ouvirem a contar a história, algo intrigados com a presença de um estranho ali pela manhã.
E a Educadora começou por falar de livros e lembrou-lhes o que já antes lhes havia explicado sobre os escritores. Um dos rapazes vendo que a minha cara correspondia à foto da contracapa do livro, rápido me questionou?
- Conheces o Camões?
A associação é demasiado lisonjeira para mim e fez-me pensar que talvez aquela criança ache que os escritores vivem todos num panteão qualquer, que se levantam da tumba todas as manhãs e tomam o pequeno-almoço juntos a debitarem sonetos e versos enquanto partilham as meias de leite e os pães com manteiga…
Uma espécie de “Clube de poetas”, por certo envolvendo os mortos e os ainda vivos.
Expliquei-lhe que o conheço apenas pelo que ele deixou escrito; e pensei mas não consegui pôr em palavras para quatro ano, esta ideia de que a humanidade dos anos que eu viva tem sempre a oportunidade de se cruzar com a eternidade dos heróis que cruzam os séculos.
Um benefício nosso.
Passei a contar a história e a conversa animou à volta da magia, da imaginação, da alegria de conseguirmos chegar até aquilo que mais queremos.
E quando um deles me fez a pergunta de um bilião de dólares:
- Porque é que escreves?
Respondi que utilizo as palavras para construir o mundo que eu quero e que eu desejo, não desistindo porém de tentar que o outro mundo, o real, herde também a arquitectura que expressa essa vontade.  
E confidenciei-lhes que a magia é afinal esse trilhar dos sonhos e a fidelidade ao que importa, nós.
Não sei se as crianças me entenderam enquanto comiam as bolachas e comentavam uns com outros, tudo aquilo que de mágico esperavam lhes pudesse acontecer de seguida.
Mas vocês meus queridos amigos entendem-me perfeitamente.

Sem comentários:

Enviar um comentário