sábado, 16 de maio de 2015

O infinito das coisas simples


O avô Joaquim tinha uma horta para onde nós íamos algumas vezes durante as férias e onde vibrávamos com a fertilidade da terra. O entusiasmo do meu irmão atingiu o ponto máximo numa altura em que resolveu contar o número de tomates e o anunciou; passava dos duzentos.

Algures num verão mais seco foi necessário pesquisar água. Depois de eleito o sítio, escavou-se, feriu-se uma veia do precioso líquido, e não tardou a que tivéssemos um pequeno poço.

Às vezes o avô Joaquim leva-nos até ao Colmeal da Silveirinha, íamos pelos Capuchos, Paraíso, o Carapiteiro, e depois sempre junto à parede da Tapada até cruzarmos para terras que já pertenciam ao concelho de Elvas. Uma caminhada longa que exigia o retemperar das forças com uma açorda.

Eu ia com o avô até às margens de uma ribeira e apanhávamos lá os poejos que usávamos depois na confecção da dita açorda que pela nossa fome ganhava estatuto de banquete requintado.

Esta semana e a propósito do livro NÓS alguém me falava da simplicidade das palavras que contam as minhas histórias.

É natural. 

Eu aprendi a contar histórias com o avô Joaquim e as minhas palavras têm de ser simples porque são "colhidas" da terra como a água ou os poejos que enfeitam de vida e aromas o estio da "planície rasa".

Um dia, teria eu uns treze anos, viemos a Fátima e o avô viu o mar pela primeira vez, alguns anos depois de mim que comecei a vê-lo desde muito cedo.

Não o senti impressionado pela majestade azul do oceano visto do Sítio na Nazaré. 

O que é realmente grande nesta vida arruma-se na alma, muito mais do que em qualquer espaço de memória que registe as bênçãos do olhar.

E quem acaricia a Terra e lhe toma a simplicidade nos seus mais pequenos detalhes, trata-a por tu, convive de perto com o infinito, jamais se intimidando com quaisquer horizontes.

Oxalá as minhas palavras sejam sempre simples e com aroma de poejo e eu nunca deixe de ser o Quim, o "mê gaiato".


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