quarta-feira, 20 de maio de 2015

“Tira a mãozinha daí…”


Seguindo pela Auto-estrada A1 e a poucos quilómetros do Porto vejo um outdoor que me diz ter chegado a casa. À primeira vista a mensagem parece-me simpática e adequada, até porque me sinto sempre no Porto como em casa; mas depois verifico que tal se refere ao Porto na vertente clube de futebol, e aí definitivamente e com todo o respeito, aqui não jogo em casa. Hoje até venho assim contente, bicampeão e de gravata vermelha.
Mais à frente vejo dois novos cartazes gigantes a anunciarem o disco de uma cantora chamada Maria Lisboa.
Com semelhante nome a querer vender discos no Porto?
Deve sentir-se por aqui tão em casa como eu no Dragão; apesar, e registo, o disco se chamar “Tenho fé em Deus”.
Pois… só mesmo com muita fé, já se vê.
Continuo a olhar para os oudoors e verifico que entrei na “Área Motel”. Há o “Silk” e o “Emoções”, e a avaliar pelos desenhos… saltos altos e champanhe serão coisas que não faltarão por lá a preços que vão desde os vinte e cinco Euros.
Depois da Maria Lisboa de mãos postas a expor as unhas de gel tratadas em algum corner de um Centro Comercial…
Não fora eu ter boa memória e poderia passar-me despercebido o facto desta cantora há já muitos anos, em tempos do saudoso top “Made in Portugal” que passava na RTP aos domingos à hora do almoço, ter tido um êxito chamado “Tira a mãozinha daí que eu sei que é bom mas não é para ti”.
E agora com a fé…
Bem pode dizer-se que não há assim tantas incompatibilidades históricas e há novas Madalenas a pairarem arrependidas sobre as emoções e a seda da mais objectiva e brejeira lascívia patrocinada a vinte cinco Euros… e com parque de estacionamento discreto.
Sigo…
Novo cartaz: “Alvaiázere, a Capital do Chícharo”.
Não sabia que tal leguminosa também tinha capital e anexo-a desde logo à minha lista das ditas onde consta, entre outras, a do Móvel, da Chanfana, da Pêra Rocha, do Cavalo, e até, imagine-se, a Capital do Palito, o Lorvão no Concelho de Penacova.
Outro cartaz muito bem situado, sobretudo se atentarmos que passámos perto de Alvaiázere há mais ou menos cento e vinte quilómetros e que depois de uma imersão em francesinhas e tripas, de volta ao sul dificilmente alguém se lembrará de sair da auto-estrada para ir comer aqueles primos direitos das ervilhas.
Vejo mais um cartaz do Continente (“O que rende…”) e depois e já no Porto, os outdoors da pré-campanha.
Também prometem “emoções” e “champanhe” para a nação, mas omitem naturalmente o preço, que é, e eu sei e sabemos todos, bem mais de vinte cinco Euros. Aposto que até o estacionamento será pago e muito pouco discreto pois terá a supervisão dos delegados da EMEL.
Avanço…
“Tenho fé…”…
Em Deus sim tenho, embora não faça cartazes de mãos postas e nem sequer tenha unhas de gel (e nem a unha do dedo mindinho crescida, ouviste Celso?).
Mas nesta gente não tenho fé nenhuma.
Confesso até que se pudesse fazia inversão de marcha e seguia o caminho contrário ao da Maria Lisboa, acabando a cantar “Tira a mãozinha daí que eu sei que é bom mas não é para ti”.
Sem lascívia mas com amor ao ordenado.
E já que fazia inversão de marcha talvez fosse a Alvaiázere comemorar com Chícharos o bicampeonato.
Com emoção.
As histórias contadas pelos outdoors da auto-estrada a um homem que viaja sozinho…

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