domingo, 16 de outubro de 2016

Berlim é afinal a própria vida…



Quem vir o autocarro a passar assim tão ligeiro desde Oeste até à Unter der Linden poderá facilmente enganar-se no "preço" que tem a liberdade.
Até o céu limpo e o vento que cobre de Outono o chão do Tigarten parecem querer calar esses dias em que o horizonte se esbatia em cinza, então rendido ao olhar que de tão triste nos salgava a face.
E só o eco anónimo dos punhos doridos de tanto acudirem à alma, nos lembra aqui que a liberdade tem o valor infinito da fé dos Homens. E tem o “preço” de tantas vidas.
Berlim é afinal a própria vida.
Há muito que ruíram os muros onde viviam amordaçados os nossos abraços, e as palavras que desenhamos agora em prosa sob as tílias são as nossas, porque são o canto do peito embalado pela verdade.
O amor que cede e se rende à vergonha é o suicídio por negação da própria vida.
Um Homem que esconde os seus beijos é um moribundo mutilado cruzando a História.
Nada é tão nosso quanto o amor e a liberdade, e enquanto cruzamos as ruas perdendo-nos algures entre o leste e o oeste, deixando-nos acontecer; sabemos que mesmo que o olhar nos salgue a face, será porque a alma se emocionou feliz num beijo, e não tem outra forma de o dizer.

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