quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Um fim de tarde em Milão

O dia de muita azáfama acaba por me oferecer um fim de tarde tranquilo e com tempo para um café com vista para a Duomo e para o seu esplendor gótico, herança de um tempo em que as cidades se afirmavam pelo poder das suas catedrais.
É já muito ténue a luz do sol mas a noite ainda não tem suficiente força para que brilhe intensa a lua que hoje se anuncia cheia. É por isso à luz dos candeeiros já acesos que vejo desfilarem as filhas (e as netas) das “Sophia’s Loren” carregadas de sacos de papel timbrados com aquelas marcas em relação às quais nós, pobres mortais, só temos o poder de oferecer o olhar no admirar das montras.
Não traíram a beleza das avós estrelas de Hollywood e continuam lindas as mulheres italianas. Nada têm a ver com os esqueléticos cabides de um metro e noventa que em semana da moda tomaram o pequeno-almoço comigo no hotel, se é que pequeno-almoço se pode chamar a dois grãos de cereais despejados para um iogurte natural que é tragado de forma lenta e asténica juntamente com dois copos de água.
A sorte das Venezuelanas nos concursos de Miss Universo só se deve ao facto das italianas ficarem por aqui a comer canneloni e tiramisu.
E para além disso, com homens como estes que também aqui passam, o que iriam estas mulheres fazer para um palco a desfilar em fato de banho e a dissertar em cinco palavras sobre a guerra e sobre a fome no mundo?
E as barbas estão definitivamente na moda.
Não há gaivotas por sobre a praça para me trazerem o céu de Lisboa e é o ruído de um eléctrico que desfila sobre os carris e “galga” a calçada irregular que oferece à passagem dos carros uma estranha melodia, que me traz definitivamente o som da cidade do Tejo, a senhora dos mágicos fins de tarde.
E até os eléctricos são amarelos e este até tem um número que me recorda a liberdade: 1974.
Na praça há vendedores de tudo e de bugigangas de plástico reluzente que voam por sobre as nossas cabeças e brilham na noite, há pedintes mais ou menos profissionais, bancas de cartomantes e descodificadores de sinas e destinos, Homens em pose de estátua e na competição para a mais ousada, colorida e original que possa fazer soar mais moedas a cair no fundo da sua lata, casais de namorados que registam com um beijo o momento de estar aqui, e há os grupos de turistas que chegam, fotografam e avançam para a próxima paragem porque de muita correria se fazem os passeios do género “eu já lá estive”.
Avançarão para as Galerias Vittorio Emanuelle II e daí muito possivelmente para o La Scala, por certo o mais famoso teatro de ópera do mundo.
Não sei se na visita curta à sua fachada, os turistas terão tempo para aprender que o Teatro alla Scala deve o seu nome à igreja de Santa Maria alla Scala que antes existia no mesmo local e que foi inaugurado em 3 de Agosto de 1778 com a ópera L’Europa Riconosciuta, de Antonio Salieri.
Sabe-lo poderá ser um bom presságio nestes dias em que a Europa anseia por voltar a ser Riconosciuta.  
A noite já caiu agora definitivamente sobre a praça e sobre nós, e é então a vez da lua cheia sorrir espreitando por cima do imenso casario da cidade velha que está tingido a tons ocre e vermelho.
Aquecido pelo café, fecho então os olhos por uns breves momentos e transponho-me para a cidade no inicio do Século XX despedindo-se de Giuseppe Verdi no seu funeral entoando o coro dos escravos da ópera Nabucco. Rezam as crónicas que Milão saiu à rua para cantar ao seu compositor.
É a banda sonora de um fim de tarde perfeito com Verdi, Milão e… cada eléctrico a trazer-me lembranças de Lisboa.

1 comentário:

  1. Estou satisfeito, com esta tua narrativa, já não necessito de ir a Milão... :)
    Perfeita
    Abraço

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