domingo, 15 de setembro de 2013

“Eu quero que sejas muito feliz”

A manhã solarenga de domingo faz com que a auto-estrada pareça um caminho exclusivo desenhado para mim. Sigo pelo asfalto da forma que mais gosto, sem rádio e sem música, apenas com os meus pensamentos.
De repente vejo algo na estrada à minha frente, mudo de faixa, abrando e vejo um boneco. Num carro à minha frente alguma criança chorará por esta queda fatídica que vitimou o seu companheiro de brincadeiras.
Mais à frente num viaduto, um adulto e uma criança, os dois equipados à ciclista, observam divertidos o pouco movimento da auto-estrada. Parecem felizes por finalmente terem a possibilidade de ver passar um carro.
Vou para Fátima ter com uns amigos.
Ao fim de muitos anos a Festa dos Capuchos não coincidiu com o Encontro Nacional dos Convívios Fraternos e vamos participar na eucaristia de encerramento. Fui ali pela primeira vez há 32 anos e a última há precisamente 23 anos.
Muita vida passou entretanto ao ritmo do tempo, e ao jeito da minha viagem desta manhã, quantas ilusões pularam do meu “carro” para fora e quantos afectos e sorrisos me alegraram do alto dos “viadutos” sobre os dias.
Faço desfilar as memórias e transponho-me para a viagem de autocarro que organizávamos sempre desde Vila Viçosa e que partia no sábado de manhã.
Sinto saudades das nossas gargalhadas quando fazíamos uma “paragem técnica” por volta da Ponte de Sôr e iam homens para um lado e senhoras para o outro para que à vontade pudéssemos satisfazer as necessidades fisiológicas, da foto de grupo que tirávamos sempre em frente ao Palácio da Justiça de Abrantes, do Paulo Geadas aos gritos pelo Manuel também no Mercado de Abrantes, da D. Catarina a partilhar as suas empadas e a recomendar ao Sr. Julião que tomasse a dele com uma tacinha de vinho, da lancheira de bolos que a D. Filipina e o Sr. Diogo tinham trazido da sua padaria e partilhavam com todos, da mãe da Luisa Valente a fazer a viagem do Alandroal para Vila Viçosa já muito atrasada e nervosa a confundir a luz de um guindaste das pedreiras com os faróis do autocarro que já viria buscá-las, das playlists de cantigas que a Zinha fazia sempre para que não nos faltasse nenhuma e pudéssemos cantar todo o caminho…
E, incrível, até sinto saudades das guerras da família “Há papa” com a vizinha Clotilde para poderem viajar no primeiro banco do autocarro.
Viagem solitária pela auto-estrada?
Só na aparência.
A Manuela e o Zé Maria esperam-me em Fátima e com a ajuda dos telemóveis lá nos conseguimos encontrar. Conferimos as cores correspondentes às dioceses que já estão alinhadas na escadaria e não deixamos de dar uma gargalhada quando nos apercebemos que estamos no lugar que era dantes o dos nossos pais: à sombra debaixo das colunatas.
Não encontramos ninguém conhecido, nem na assembleia nem na fila de padres a caminho do altar onde sentimos saudades do rosto corado do Padre Simões e da piscadela de olho que o Padre Armando sempre nos fazia. Nem as particularidades capilares de natureza artificial que recordamos de alguns padres nos ajudaram à sua identificação.
No ofertório lá vieram à baila os nomes dos que em determinada altura foram representar a nossa diocese e não nos esquecemos da São Duarte, do João Canha, da Rosa, do Pedro Pinto e do par Gina e Manuel, estes últimos que tiveram de se vestir de ceifeiros e pareciam saídos de um rancho folclórico.
E no final, o adeus.
Nunca sei porque choramos em Fátima na altura do adeus, julgo sempre que é um pouco pela tristeza de ter de deixar um pedaço de Céu que ali nos é dado viver… mas hoje sei perfeitamente porque chorámos os três.
Chorámos porque olhando à volta nos faltaram aqueles que sempre esperavam por nós na base da escadaria para nos encaminhar para o restaurante que tinham escolhido e onde todos juntos íamos à pressa comer uma carne estufada ou algo semelhante. Chorámos pela natural saudade dos tempos de meninos e por não termos ali a Maria Cândida, o Manuel, a Florinda, o Artur e a Maria Inácia, a cuidarem de nós como só eles sempre o fizeram, num misto de alegria por ainda os podermos beijar e acariciar a cada encontro e todos os dias; e também de agradecimento por nos terem feito assim tão felizes.
E despedimo-nos já a sorrir lembrando mais alguns amigos ausentes porque a sorrir ali para nós e ao ritmo do sol do meio-dia estavam todos aqueles que já partiram mas que a nossa memória torna eternos.
Vendo-nos ali aos três, tenho a certeza de que o Padre Armando também do Céu piscou o olho, muito feliz.
Foi ele que um dia debaixo de uma laranjeira em frente ao Posto de Turismo e antes da Páscoa de 1982 me disse:
- “Quim, estas férias vais fazer o Convívio Fraterno. Eu quero que sejas muito feliz”.
Conseguiu.

2 comentários:

  1. Bolas pá. Foi este mesmo o meu dia. Isso so revela que as nossas memórias estao muito ligadas numa viva que em muito do que e bom se toca.
    Forte! E simples.

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  2. Fátima...é tão fácil chorar por alegrias e tristezas da forma mais natural. Fazemos os nossos regressos e pensamos nos nossos futuros. Impossivel entrar naquele espaço e ficar indeferente.
    P

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