sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

A ceia de Natal


A chegada tem esse inesquecível sabor doce do beijo dos avós, enquanto na casa há aromas de sobro a arder na chaminé, alinhados com o bacalhau, as couves e as batatas que sobre a mesa aguardam o tempero do azeite, para que a fios de ouro líquido se debrue a festa que a todos nos chamou.
Ao redor da mesa, há sorrisos e sobeja afecto nas palavras, nos olhares e até no mais simples gesto. É a alma a usar todo o corpo no expressar da sua felicidade.
O fim do jantar convoca-nos para a lareira acesa onde uma ronca ou zabumba que fazemos vibrar por entre as mãos molhadas, com o crepitar da lenha, dá o mote para o canto ao Menino que esta noite nos impõe à voz.
Enquanto isso, na cozinha, o bulício das mulheres assegura a ceia.
O sino toca e chama-nos à missa que é do galo e a que acudimos pronto, fingindo sempre não reparar que o pai ficou para trás, possibilitando dessa forma que a magia dos presentes trazidos pelo Menino Jesus se possa cumprir no momento do nosso regresso a casa.
Na Igreja, estamos todos, no encontro dos melhores capotes e samarras, na noite das mil campainhas que anunciam o cumprir da profecia de um Deus que chega e se faz Homem.
E canta-se Glória…
De volta ao lar, há presentes junto à lareira, e sobre a mesa já está a toalha do melhor linho e de rendas finas, onde brilha a carne de porco, o pão, o vinho, o cacau, as filhós, azevias, coscorões, aletria, arroz doce, borrachos, rabanadas, bolo-rei, broas, e claro, todos os sonhos, porque é essencialmente de sonhos que se faz uma noite assim.
Já é tarde e nem a férrea vontade de usufruir dos brinquedos há tanto desejados, detém o sono que nos faz adormecer no colo das mães.
Chegou a hora de nos separarmos, mas por breves instantes, pois a noite é demasiado curta para a vontade enorme de voltar quando a mesa do almoço já estiver posta e à espera do peru. Prepara-se o regresso a nossa casa, entre os braços do pai e os cambaleantes passos na rua deserta onde só o eco nos acompanha.
Faz frio, e por isso a avó não nos deixou sair sem que trouxéssemos o calor do seu xaile que cheira a ela e aos seus beijos, que assim nos acompanham no cumprir de um privilégio sem par.
E nem damos pelo facto de a cama estar fria, quando a mãe nos despe e faz mergulhar entre os lençóis.
Há muito que nos entregámos ao sono na certeza de que com ele virão esses sonhos únicos de uma noite nascida perfeita, de uma noite de Natal.

2 comentários:

  1. Bonita e interessante descrição do que é a (verdadeira) noite de Natal !!!

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  2. Obrigado por teres feio a descrição da ceia de natal que serviu de abertura para o lanche de natal no centro de formação
    RUI PEREIRA

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