terça-feira, 5 de julho de 2016

Cinquenta anos. Sim, com a vida em dia.



Rumo ao sul contemplando o horizonte que arde ao sol da tarde, sorrindo por saber que o olhar da minha mãe me beijará desde o primeiro instante, ali, um pouco antes de nos celebramos no abraço berço que guarda dentro de si o amor perfeito e que embala serenamente tantos outos beijos. 
Eu sou este amor e este olhar, muito mais do que tudo aquilo que o tempo possa querer fazer de mim.
Eterno…
O baloiço que pende do frondoso limoeiro de frutos generosos, o voo rasando o sonho aos comandos do tronco encurvado da oliveira que persiste no átrio da minha escola, as gargalhadas dos amigos nos serões de Vila Viçosa onde o fresco de Agosto nunca aparece, a fé celebrada no canto às giestas e ao rosmaninho nas tardes de Páscoa, os diários de Torga, cada recanto das palavras de Pessoa, de Yeats, de Youcenar, o mar de Sophia, um fado cantado por Amália, um verso de Carlos Tê numa canção de Rui Veloso, os doze pontos do júri da Eurovisão, uma Bola de Berlim, uma fartura na feira, as cartas de amor soletradas quando o Tejo já se despede do Terreiro para se abraçar à noite, as palavras que eu insisto em desenhar sobre tudo aquilo que sinto…
Eu sou isto, sou este amor e este eterno olhar… e nada daquilo que eu sou cessa ou se atormenta por mais que o tempo passe e que a gente ou vento se atravesse.
Cinquenta anos?
Sim, de idade; que se medissem aquela vida que importa eu teria muitos mais de cinquenta, tal esta “desfaçatez” de finalmente olhar o tempo e questioná-lo de frente, olhos nos olhos.
- Queres passar depressa ou mais devagar? Eu irei ao meu ritmo e sempre sem me inquietar.
- Longo ou curto, como és? Como queiras ser na certeza de que não desperdicei um só segundo e nunca me privei de nada: de uma viagem, de um beijo, de um abraço desenhado ao pôr-do-sol ou até de alguns muito simples cafés.
- Espicaça-me e “stressa-me” lá com essas coisas vãs da ambição… Vou sorrir-te descontraído e indiferente. Eu irei despertar-me a sorrir todas as manhãs. Desde que eu viva em paz com o meu coração…
- Ameaça-me com hérnias discais, diabetes, hipertensão e todos os riscos inerentes ao envelhecer… Não tenho medo de ti e tenho a vida em dia, aconteça o que acontecer.
Cinquenta anos?
Caminharei feliz por entre as bermas que a minha vontade adornou de pétalas; na mão direita a caneta que desenha sílabas como golpes de espada sobre o medo e o impossível.
E quando quiserem falar de mim nunca contem por onde eu vim. Aquilo que melhor me define é tudo o que eu tenho para viver.
E se me encontrarem algures pelo caminho não esperem ver as imagens que de mim criaram. Há tanto do melhor que serei que nem eu próprio consigo ainda prever. 

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