quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Uma noite e o próprio fado

À frente da minha janela vejo o Atlântico que me enche o olhar de azul até ao horizonte, a linha onde não sabemos se o azul é céu ou mar, mágica ilusão de um beijo na eterna paixão que une a Terra ao infinito celestial.
Atrás de mim os vulcões de São Miguel vestidos de verde e bordados de hortênsias, as histórias e os mistérios guardados em lagoas que num despudor saudável bebem do céu e da Terra, as cores... e às vezes o azul.
Aqui, Português no cais onde as gaivotas matam saudades da terra, o difícil é não ter alma de marinheiro, raro é ter no peito outro suspiro que não o fado.
E do fado carrego a memória de uma noite de há uns dez anos, à conversa nos claustros do Convento de São Francisco, a Pousada de Beja, com José Luís Nobre Costa e o Professor Joel Pina, respectivamente, guitarrista e viola de tantos fados e tantos fadistas do meu tempo e de todos os tempos.
Num dos acasos, num desses momentos inesperados que são bombons que a vida carrega nos bolsos da nossa história, vejo-me a mim em amena cavaqueira com eles e com uma amiga comum, iluminados pelo copo de um bom tinto alentejano e tendo por mote uma paixão que nos une a todos: o fado.
E de repente e ali tão perto: Amália a cantar em Atenas mas a sonhar com o seu restaurante preferido de Paris, a mestria de Alfredo Marceneiro, Lucília do Carmo, João Ferreira Rosa, Carlos Zel...
Todos eles protagonistas das histórias que nos vão perdendo nas horas e nos levam bem para lá do tempo de um serão.
Sem o canto dos fadistas, sem as palavras dos poetas, sem os acordes da guitarra e da viola que repousam a um “canto” do sofá da Pousada, esta foi a melhor noite de fado que eu já tive, e duvido que venha a ter outra igual.
E em pleno Alentejo.
Porque entre a Terra e o Céu só há a distância de um passo para quem vive com o olhar no horizonte, o guitarrista José Luís Nobre Costa partiu ontem para lá da Terra.
Como é costume, a imprensa não deu grande destaque ao facto, talvez porque ele permaneça eterno no dedilhar que dá o tom a milhares de fados que vamos continuar a ouvir por aí.
Na minha memória também permanecerá eterno nesta gratidão de uma noite que jamais conseguirei esquecer.
Que descanse em paz no verdadeiro panteão, o dos Deuses, ali onde o escrutínio do Homem é dispensado e onde têm assento todos os artistas, aqueles que ousam entregar-se para que da Terra possa emergir a sua suprema beleza, e aconteça a arte.

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