quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

CARLOS MANUEL

Um dos melhores benefícios de estar vivo é a grande e sempre presente expectativa de que algures numa esquina do tempo possamos encontrar um amigo.
Viver nada mais é do que acreditar, e deixa-se morrer quem desiste de esperar que o amanhã lhe traga algo de novo e grande…
Como um bom amigo, um bem demasiado raro e precioso, que isso mesmo nos vai ensinando o próprio tempo e a multidão de gente que circula pelos nossos dias, a multidão onde abunda a "trampa com pernas".
Nós não nos conhecemos há muito; tu “odeias” o Benfica e tens uma antipatia visceral pelo Eusébio; és um trágico e achas que quando não estás preso, não podes estar descansado porque mesmo não sabendo, tens a certeza de que a polícia estará no teu encalço; para ti o copo está sempre definitivamente “meio vazio”…
Eu sou do Benfica, tenho lugar cativo no Estádio da Luz e irei a Santa Engrácia no dia em que o Eusébio der entrada no Panteão; sou optimista, nunca penso que a polícia possa andar atrás de mim; quando estou preso aproveito o tempo para escrever; e vejo sempre o copo “meio cheio” porque até considero que uma queda é a oportunidade crucial para uma tomada de balanço que nos permita subir.
Mas somos bons amigos.
É certo que já festejámos juntos no Estádio Nacional, uma Taça de Portugal para a Académica; já comemos uma fartura nas Fontainhas na noite de São João, no Porto; ambos gostamos de poesia e vivemos as paixões entregando tudo e até as “carnes”, o que nos torna muito mais elegantes; adoramos o Chiado, Pessoa, Camões, o bife da Trindade acompanhado por uma cerveja bem fresca, o Alentejo, Coimbra, uma boa história, uma conversa, a vista do bar do Hotel Bairro Alto…
Mas conseguimos provar que a amizade não tem nada a ver com o encontro de pessoas que se identificam pela partilha de uns banais detalhes.
É muito mais do que isso.
Porque a vida também é muito mais do que isso.
Um dia, a tua mãe, que bem poderia ser a minha mãe; porque ambas são heroínas que abdicaram de si e entregaram as suas mãos às madrugadas para que através da carne do talho ou dos trapos e das linhas, nós nos fizéssemos homens; preparou para nós um dos melhores cabritos assados que eu já comi.
Os três ali sentados numa sala que só por acaso era da tua mãe, pois bem poderia ser da minha, a conversa levou-nos pela história, pelos factos, pelos nossos afectos; e emergiram dessa conversa e da simplicidade com que me identifiquei, os valores, aqueles que não são convertidos em parcelas e nem são objecto de guarda no banco; mas os que oferecem raízes ao carácter e nos moldam o ser.
Porque é indiscutível que há gente boa e gente que é um pouco menos boa.
É e será sempre essa cumplicidade nos valores simples mas grandes, que permitirá explicar a nossa amizade, sabendo que quando se está de alma cheia, quando se partilha a fé e os valores grandes, um mais um é bem mais do que dois, é uma vida muito mais feliz.
Mesmo quando tu te ris de mim na altura em que eu chamo Catedral ao Estádio da Luz.
Carlos, muitos parabéns e um forte abraço.

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