quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

O sonho por entre as sombras

Tem um intenso tom cinza de inverno, o momento em que o avião se faz à pista sobrevoando a costa que denuncia um mar revolto.
O Norte tal qual o Atlântico.
Andam demasiado agitados os mares da Europa, e o tecto de nuvens que persiste sobre Lisboa, estende-se até aqui aos arredores de Amesterdão.
Confirmo-o desde o confortável e inspirador “Fernando Pessoa” da frota da TAP.
Hoje vim a bordo da poesia.
Passo acelerado entre a multidão de gente que parece andar louca e acelerada, mas que afinal segue segura do seu destino entregando-se sem reserva às inúmeras placas que “adornam” todo o espaço.
Não tarda e estou sentado numa carruagem do comboio que tem essa estranha sinalética que impõe o silêncio. Nem conversas, nem telemóveis e nem sequer o ruído das malas de viagem a rolar sobre a alcatifa. No mundo do ruído, o silêncio só acontece se for assim imposto como regra.
E há uma passageira, guardiã do espaço, que faz “xiu” quando o lusitano já não consegue mais e rebenta numa só palavra que até é dita num tom muito baixo.
Mas o silêncio só existe se for absoluto…
O tecto de nuvens é o mesmo de Lisboa, mas a aragem é incomparavelmente mais fria quando paralelo ou cruzando canais, busco já noite o caminho para o hotel.
Passo por entre a multidão que ri alto e sem reservas, como que parecendo vingar-se do silêncio que é imposto por algumas carruagens do comboio.
E porque há destinos assim, onde se vai para estar feliz…
O hotel, a perspectiva de uma reunião que começa muito cedo, a procura de um restaurante próximo e rápido…e a comida indonésia que, com a fome de um almoço a bordo, me sabe pela vida.
Faz menos frio quando regresso ao hotel (ou será da pimenta da iguaria ingerida?); há muito menos gente na rua, e eu mergulho entre as sombras que ladeiam os canais que por ora têm um intenso tom negro, sentindo-se a água apenas em algum rebelde soluço que motiva o roçar de um barco contra as margens.
O ar tem um doce odor a liberdade.
As nuvens, a aragem fria, a água…podem até fazer lembrar Lisboa.
Mas não fosse o sonho e as lembranças de ti que emergem quando caminho por entre as sombras, por entre toda a gente, por entre o riso e o silêncio…e digo-te, morreria de saudades tuas. 

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