sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

O “centro” e as suas poucas virtudes

Nos poucos anos de liceu em que estudei Francês deparei-me com a dificuldade em escrever as palavras com a acentuação correcta, aguda ou grave, facto determinante para qualquer língua mas que para o Francês é definitivamente crucial.
Assim e sempre que surgia a dúvida, eu recorria a uma técnica que desenvolvi em conjunto com os meus colegas e que consistia em colocar os sinais numa vertical perfeita. Competia depois ao professor escolher qual a inclinação correcta.
De forma mais ou menos consciente eu estava a encarnar e a dar uso à nossa peculiaridade genética que determina que “no centro é que está a virtude”.
E por isso todos nos esforçamos por estar no “centro”, esse ponto confortável com vista para um e outro lado da questão e que nos deixa a um brevíssimo passo do “sítio destinado ao estacionamento das modas”.
À pergunta:
- Como estás?
Respondemos quase sempre:
- Mais ou menos.
O “centro” na resposta que não é carne nem peixe, aliás, não é nada porque o “mais” anula o “menos” e ficamos a zero.
Mas assumir o “mais” é arrogância, e nunca sabemos se no instante a seguir nos cai um vaso de sardinheiras na cabeça e vamos desta para melhor. O “menos” também é demasiado humilhante e nós nunca vamos reconhecer que estamos mal.
Na condução seguimos o mesmo critério e todos viajamos pela faixa do meio. A da direita é para os lentos e nós até temos um “carrinho” jeitoso. A da esquerda é para os inconscientes.
Viajamos então no meio e na companhia da prudência, insensíveis a todos os impropérios verbais ou digitais das pessoas que nos ultrapassam pelas outras faixas.
Também na política todos pretendem situar-se no “centro”, mas aqui com o objectivo de ter maior campo de recrutamento de votantes. De facto, se olharmos bem, o PS só está à esquerda quando descemos da Rua D. João V para o Largo do Rato, e o PSD só está à direita quando subimos a Rua de S. Caetano à Lapa.
E alguns não estão no “centro” mas até deveriam estar lá, neste caso no Centro de Acolhimento para Dementes.
Este luso cortejar do “centro” está no sangue e expressa-se nessa dificuldade em dizer “sim” ou “não” em alturas em que fazemos patinagem verbal pelas zonas cinzentas do “nim”, que é como quem diz, do “assim-assim”.
- O namorado da Maria é giro?
- Bem… É muito simpático… Ia muito bem vestido… e… Sabes? Fala bem… Acho que não é mau rapaz… É de boas famílias… Acho que gostei dele.
Bolas!
Basta dizer “sim” ou “não” e neste caso não é necessário utilizar tanta conversa porque já todos percebemos que a criatura mete medo ao susto.
Mas reparem que mesmo o “gostei dele” tem atrás um “acho” que já nos defende porque o “acho” é bastante volátil e permite uma inversão a qualquer momento se formos contra-atacados. É uma “faixa do meio” e basta dizer que deixámos de achar com base em quaisquer hipotéticos dados.
E mesmo quando alguém ousa romper este gosto pela “mediania” assumindo que “quem não arrisca não petisca” há sempre três indivíduos que chegam para dizer que “quem tudo quer tudo perde”, que “mais vale um pássaro na mão do que dois a voar” e que “prudência e caldos de galinha nunca fizeram mal a ninguém”.
Verdadeiramente, acho que a virtude está onde queiramos que ela esteja. Algumas vezes à esquerda, outras à direita e ainda outras, obviamente ao centro.
Por vezes no “sim”, outras no “não”, muito poucas vezes no “banho-maria” da hesitação do “talvez”…
Tudo depende do sítio onde estamos e do sítio para onde queremos ir neste prazer supremo que é o usufruto da nossa vontade.
Muitas vezes quando apostamos cegamente no “centro” seguindo a técnica das minhas aulas de Francês, erramos.
Afinal, um sinal vertical colocado numa palavra Francesa está sempre e objectivamente errado.
Neste momento, o país e as nossas vidas precisam urgentemente dos gritos de “sim” e “não”, conforme o caso e a pergunta.

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