sábado, 8 de julho de 2017

No tempo em que eu nasci…


No tempo em que eu nasci as fotos eram a preto e branco, e embora os fotógrafos se esforçassem dando-lhes um retoque, ao jeito de maquilhagem, as verdadeiras cores guardávamo-las connosco na memória.
Ficaram para sempre ali sentadas num recanto confortável, em ameno convívio com os olhares, os trejeitos, as histórias, as frases completas e os beijos que nos fizeram.
Porque sim, um Homem é feito de beijos, essa mágica expressão de amor, muito mais do que daquilo que qualquer aporte proteico ou vitamínico lhe possa acrescentar.
Guardei estes dias ao redor do meu quinquagésimo primeiro aniversário para passá-los com os meus pais em Vila Viçosa.
Será sempre neste sul que encontrarei o meu norte, mesmo agora que os meus braços se sobrepõem aos deles, fragilizados pela idade; mas a ordem pouco importa, porque somos feitos dessa "carne" dos beijos infinitos do mesmo amor, do mesmo imenso amor.
Esta será sempre a casa dos meus instantes de renascer, onde os nossos serões têm a forma de um triângulo desenhado pelos olhares, e eu, entre o sono e o amor, me perco no tempo, não sabendo se é infinito o que já vivi com eles, ou pelo contrário, infinito é o tanto que ainda me apetece viver.
Aqui, onde nunca envelheço, por entre as palavras sonolentas mas doces, escapam-se sempre as cores dos instantes que o fotógrafo captou a preto e branco, mas solta-se também o azul dos dias que virão, azul como o céu da liberdade das asas de um condor.
Porque os Homens são feitos de beijos, e gozam das asas oferecidas por esse tanto amor.

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