quarta-feira, 22 de julho de 2015

"Atão"...


Se "a minha pátria é a Língua Portuguesa", e quem sou eu para contrariar Fernando Pessoa; direi que nesta "ditosa pátria minha amada", assumindo também inteiramente a partilha deste sentimento com Luís de Camões, o meu mais íntimo recanto é a fala do sul com um claro sotaque Alentejano.
Numa das salas de espera do Hospital de Évora, enquanto Julho quase puxava a temperatura para os quarenta graus, a D. Joaquina falava dos benefícios de um "capacho" (gaspacho), e eu a começar a sentir-me irremediavelmente na intimidade do meu lar pátrio.
A D. Antónia tem um problema com o feminino, fala na "genra" (nora) e na "canzinha" (cadela), mas disserta de forma escorreita sobre a utilização dos sacos com água na soleira das portas "por mor" (por mercê/por causa) das moscas.
“A modes” (parece) que é uma engenheira.
O Sr. Joaquim tem um problema no "estâmago" (estômago) e não se cansa de dizer que "o Maneli queria vir cómigo".
Eu estou definitivamente em casa e até esta do "cómigo" é cobrança frequente do meu sobrinho João quando a utilizamos no fulgor de uma estadia em Vila Viçosa; para já não falar das ditas cobranças relativas à "mantêga" que pomos nas torradas.
A D. Antónia está morta por meter conversa e resolve perguntar-me finalmente:
- "Atã foi cê pai?"
- Sim. Respondi eu mas já com o contágio a provocar um resvalar para o "simmm".
Assim mesmo, ao ritmo dos quarenta graus: lentamente.
Ninguém disse, mas poderia ter dito que ia "à da nha'avó"; fosse inverno e alguém por certo diria que estava à espera que "escampasse" (parar de chover); existisse por ali uma barraca de feira e alguém sairia para comprar "brinhol" (farturas); quiçá alguém fosse "aventar" (deitar fora) alguma coisa.
E eu sempre a sentir-me em casa até ao momento em que uma voz feminina diz aos microfones:
- Pede-se às pessoas que "estã" na sala de espera o favor de fazerem menos barulho para poderem ouvir chamar “p’los númaros” e “p’los nomiis”.
A D. Antónia ainda me diz num tom baixo:
- "Atão (então)? Tal tá a moenga. Esta hoje acordou com os péiis de fora do camalho (cama). Desde que cheguei aqui que só a vejo andar numa fona (atarefada)"
Eu sorrio e pisco-lhe o olho.
Mas a D. Joaquina tem outra opinião:
- Ai a ver se se calam “q’ê” tenho a cabeça “esvecida” (esvaída). Até parece que levei “c’ um bajoulo” (pedra).
Mas a D. Antónia quer ter a última palavra:
- Oraaa… vamos indo com o que vamos engolindo.
Eu continuo a fingir que leio a entrevista do Schauble ao Diário de Notícias.
Ah ditosa pátria...
E que bom que é estar em casa.

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