quinta-feira, 2 de julho de 2015

Um estranho chá das cinco


Falta muito pouco para as cinco da tarde, eu já acabei o trabalho e mantém-se aquela humidade terrível que se nos cola à pele. Estando na terra da única plantação Europeia de chá e sendo eu conterrâneo de D. Catarina de Bragança, nada mais natural do que sentar-me numa esplanada de Ponta Delgada e pedir um chá verde da Gorreana, mas gelado.
O empregado responde com um não ao meu pedido, só tem Ice Tea engarrafado e com diferentes sabores, e eu tenho de lhe explicar que com um chá e um copo cheio de gelo eu próprio resolverei a situação.
Ele traz o que lhe peço e fica a olhar para mim tão incrédulo que quase me faz sentir um excêntrico Harry Potter em missão feiticeira, ou então quiçá apenas um farmacêutico a manipular algo num patrocinado regresso aos primeiros anos da minha profissão. Mas não se queda ali por muito pois breve corre para junto das colegas com o objectivo de discutir as agruras do horário de trabalho, que pelo tom de voz com que o fazem partilham com a esplanada e as adjacentes.
Como se o objectivo de quem se senta numa esplanada num dia quente de verão fosse a discussão das condições laborais dos funcionários num debate ao estilo “Arménio Carlos no Jornal da Noite da SIC Notícias”…
Entretanto apercebo-me que atrás de mim, um ancião grita ao telemóvel com tal intensidade que é impossível não me aperceber que regressou ontem à ilha e está a convocar os amigos, pelos vistos da sua idade:
- Tu ainda conduzes?
Vejo algo de profético nisto: eu a chegar a Vila Viçosa daqui a 40 anos e a telefonar ao Manuel depois de ter ido à Farmácia Monte comprar o “Corega” para a placa e ter ido comprar sacos para a algália.
- Pega no carro e aparece lá em Santana.
E depois desliga e liga a outro...
Do outro lado há um casal que assina um contrato de aluguer de uma viatura e a mulher, que tem as unhas pintadas de salmão fluorescente, também grita numa conversa com a rapariga da agência que traz uma T-shirt vermelha com um tamanho três números abaixo do indicado e que parece a “Dolly Parton Micaelense”:
- Eu quero ir ver tudo pois já conheço o mundo inteiro e nunca vi aos Açores. Ai meu Deus o que eu gosto das Caraíbas e de um hotel em que eu acordo, digo "bom dia mori" e depois mergulho pela janela. Porque  sabe, eu cá vivo na linha mas nunca paro em casa. Sempre a viajar como o meu marido.
Pelo tom de voz estridente da senhora que denuncia a sua afinidade com a Cristina Ferreira, pelas jeans que o marido veste e que parecem ter sido desenhadas pelo seu pior inimigo, pelo cordão que o mesmo senhor traz ao pescoço, pela classe da viatura que alugaram e porque as verdadeiras tias não dizem "não achas mori?"... eu concluo que esta tia é falsa.
E estridente.
Mais à frente tenho um grupo de turistas que falam em Inglês com sotaque Americano, e que, agarrados a um guia de viagem discutem quais os itens que lhes faltam para cumprirem as “Masterpieces” de Portugal, andando em busca do "Caldooo vêde", como se de Indiana Jones se tratassem.
Talvez fosse bom irem à procura de Cracas para Ponte de Lima…
Resta-me um último refúgio: as notícias no i-Phone.
"A minha prisão visa apenas impedir que o PS ganhe as próximas eleições", afirmou Sócrates.
Pois é...
Outro que não se cala e me grita aos ouvidos.
Nós, os Portugueses, até somos todos estúpidos e fáceis de enganar com manobras deste género.
Bem sei que não achamos o caminho da fortuna de forma tão hábil quanto ele, mas daí até concluir que somos burros...
Volto a pôr o i-Phone no bolso.
Paz é coisa que não tenho ali naquela Babel situada cinematograficamente entre o “Voando sobre um ninho de cucos” e as “Mulheres à beira de um ataque de nervos”. Com o empregado a ter muito de “Nelo e Idália num concerto do Tony Carreira”.
Fico a um pequeno passo de gritar que "acabou o Carnaval de Ovar", mas resolvo sair discretamente não sem antes acabar de beber o chá; eu, o mudo naquele universo pimba.
Diz-se que a D. Catarina convocava o chá às 17 horas para assinalar quais as damas faltosas, aquelas que assim ficavam na linha da frente como supostas amantes do rei.
A avaliar pelo meu chá de hoje e seguindo o mesmo raciocínio de faltas, concluo que o Camões está em paz; quem o poderia ter ido chatear preferiu-me a mim.

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