sábado, 28 de maio de 2011

À rasca, a tinta e ao pontapé

Passei esta semana pela Praça do Rossio, em Lisboa, e não pude deixar de ler algumas das mensagens veiculadas em cartazes improvisados, que acompanham os jovens ali acampados e que são o rosto em Portugal, de um movimento também presente noutras cidades do mundo, como Madrid, com um acampamento semelhante na “Puerta del Sol”.
Assumem a sua discordância com o modelo actual dos estados, quer seja na perspectiva económica, política ou social. Reivindicam um modelo novo que lhes traga mais oportunidades.
Acompanhando a campanha eleitoral, assisti aos confrontos verbais entre Jerónimo de Sousa e os estudantes da academia coimbrã, quando durante um comício da CDU na cidade do Mondego, os estudantes reclamavam pelo facto das escadarias monumentais da Universidade terem sido pintadas com mensagens políticas da coligação comunista.
Afirmava Jerónimo de Sousa a plenos pulmões que jamais vergaria, associando a manifestação destes estudantes à perseguição de que os comunistas tinham sido alvo no período da ditadura de Salazar.
Não foi necessário estar muito atento às notícias nos últimos dias, para me aperceber da existência de uma agressão a uma jovem feita por outra jovem, filmada e colocada na Internet por um terceiro jovem, num espectáculo degradante de violência gratuita e chocante.
Três episódios distintos, um retrato perfeito do que é hoje o nosso mundo, o casamento entre a superficialidade e o desrespeito total pela Pessoa.
Os jovens do Rossio querem mudar o mundo e era bom que o fizessem, contem comigo para o fazerem, só que o mundo não se reconstrói a partir da estratosfera da sociedade. É quase como querer cultivar o jardim da nossa casa a partir da janela do segundo andar.
É dentro das estruturas da própria sociedade, com ideias novas e assumindo rupturas onde houver que as assumir, que se reformam os alicerces do mundo. É nas escolas, nas universidades, nas famílias, nos partidos, etc, que devem intervir, mais pela acção do que pela voz, ganhando credibilidade na reivindicação, pela responsabilidade e respeito por todas as regras básicas da sã convivência em sociedade.
Vão pelo exemplo e eu irei convosco.
Mas engane-se quem pensa que só os jovens vivem na superficialidade das coisas, Jerónimo de Sousa tem idade para ser avô deles e dando estatuto igual aos heróis da resistência antifascista aos “heróis do gafitti”, beliscou a memória dos primeiros, equiparando o vandalismo e o mau gosto, à nobreza de quem deu a vida pela causa da liberdade, aqueles que ainda hoje deveriam ser os verdadeiros modelos para os acampados do Rossio.
Por último, o filme dos pontapés e a Internet, comprovativo do pouco que hoje vale a vida humana, posta ao nível das coisas sem valor, evidenciando que dar um pontapé numa pessoa vale hoje o mesmo que dar um pontapé numa lata velha que se cruze no nosso caminho.
Vai longe o tempo em que a heroicidade se conquistava pelos feitos positivos, hoje conquista-se pela exibição da agressividade sem sentido e o maior de todos deixou de ser o melhor para passar a ser aquele que consegue ser o pior de todos.
Vivemos hoje no avesso dos valores.
É urgente fazer uma inversão de marcha no rumo que levamos porque acreditem que só com tinta e pontapés, jamais deixaremos de viver à rasca.

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