domingo, 1 de maio de 2011

O Beato que nos passou à porta e… entrou.

A minha história familiar está repleta de agradáveis surpresas, chamemos-lhe coincidências, uma das quais ocorreu há 29 anos.
Após longos anos de espera para nos mudarmos para uma casa maior, quis a fortuna que essa mudança para a casa do Largo 25 de Abril, na esquina com o Terreiro do Paço, se efectivasse no dia 7 de Maio de 1982, mesmo a tempo para que uma semana depois, a 14 de Maio, o Papa João Paulo II nos aterrasse à porta, quando peregrino da Senhora da Conceição, veio a Vila Viçosa presidir a uma Celebração da Palavra.
Foi um dia diferente e que jamais esqueceremos, e por certo não será pelo facto de os helicópteros terem passado tão rente do nosso telhado que fizeram cair o pessegueiro, nem sequer pelo facto da família ter tido a companhia nocturna de um policia a guardar-nos o quintal, local identificado como de elevado risco para a segurança do Papa.
O dia foi inesquecível pelo facto de ter superado as nossas maiores expectativas de que um dia um Papa nos passaria à porta.
O dia para mim foi inesquecível sobretudo pela presença e inimaginável dimensão do Homem com quem tive o privilégio de cruzar o meu olhar ali nos sítios diariamente calcorreados na minha pacata vida de estudante de liceu.
Em João Paulo II há uma dimensão histórica que faz dele um dos ícones maiores do século XX, sendo ele próprio por certo o rombo mais intenso que levou à queda do muro de Berlim e ao fim da guerra-fria.
Há uma dimensão humanista, de um Homem de cultura e de um Homem de muitos mundos, sem pátria e com dimensões de universo.
Há uma dimensão de tolerância que ficará para sempre expressa no diálogo inter-religiões.
Em João Paulo II há sobretudo, e isso foi sempre o que mais me impressionou, uma dimensão de fé.
A fé é o centro de toda a sua vida, a inspiração que quão motor o impele a rasgar as paredes do Vaticano e a sair pelo mundo a anunciar as Bem-Aventuranças, a anunciar que é possível um mundo mais justo e onde o amor deixe de ser apenas uma quimera.
Uma das imagens que sempre guardarei associada a João Paulo II é a sua chegada a Cuba. No aeroporto de Havana e ao lado de Fidel Castro, outro dos ícones maiores do nosso tempo, o Papa demonstra de forma bem vincada que a fé tudo suplanta porque terá sempre uma dimensão gigante quando comparada com tudo o que nos poderá separar.
A fé, em Deus mas também a fé nos Homens e nos valores da justiça, da paz, da liberdade e do amor, prova que tudo na vida é conciliável, e que havendo vontade, haverá sempre um ponto de encontro para estarmos juntos.
Hoje, ao tomar o pequeno-almoço com os meus pais e a assistir pela televisão ás imagens da Beatificação em Roma de João Paulo II, ali na mesma sala cuja janela um dia o viu chegar, à medida que íamos folheando os três, o álbum das nossas memórias, provávamos a proximidade da nossa relação com ele e a certeza de que um dia, pelo olhar, pelas palavras e sobretudo pelo testemunho da sua fé, passou à nossa porta e nós fizemos com que entrasse e vivesse connosco em conjunto a nossa história familiar dos últimos trinta anos.
Há muito que para nós é um dos nossos.

3 comentários:

  1. Caro Joaquim, peço desculpa pelo meu irreverente comentário publicado ontem no seu último "post" de Abril, principalmente por lho não ter comunicado anteriormente, mas foi pensado no momento e saiu espontâneo. Um abraço.

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  2. Meu caro amigo Manuel C, os seus comentários são uma componente essencial deste blogue, sem os quais ele já não vive.
    Todos os comentários de todos os seguidores são fantásticos, e concordo consigo que quantos mais, melhor para a riqueza do blogue.
    Abraço forte e até Dublin!

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  3. Joaquim, agradeço-lhe os comentários benévolos, mas não lhe perdoo o despautério do "até Dublin". O meu amigo virou bracarense? Olhe que até o Jesus (não o da Bíblia, o outro) mostrou que não está para aí virado. A ver vamos. Um abraço.

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