segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Boa noite e um olhar


A noite caíra há muito sobre a imponência granítica da cidade, e na tarde e noite do Porto, nem apenas por um segundo a chuva dera uma trégua, privando-se de soar intensa nas cascatas promovidas pelos mais altos beirais.
Não se sente frio, mas persiste o desconforto da água…
Paro o carro algures no acanhado espaço do subsolo inventado por um somítico arquitecto e preparo-me para à superfície, iniciar o slalom entre gotas da chuva, nos cem metros que distam entre o parque e o meu hotel, ganhando essa dose de coragem protegido por uma tímida arcada de pedra.
Apercebo-me que não estou só naquele espaço diminuto em que apenas os ladrilhos mais chegados à parede, estão a salvo da incessante persistência da chuva.
Ao fundo à direita, há uma mala de viagem da Samsonite e ao lado umas sapatilhas brancas de uma marca que não distingo.
Próximo, sentado numa esteira de praia daquelas que as revistas do Jet Set nos oferecem em tempo de verão, está um homem que aparenta ter quarenta anos, descalço, de perna trocada e semi-coberto por um edredão, a ler um jornal amarrotado.
Prepara-se para dormir.
Cruzamos os nossos olhares.
O dele é calmo e terno, o meu, confesso, mal disfarça a vergonha que sinto.
O meu fato, a minha gravata, mas sobretudo o meu certo destino confortável de uma cama limpa e quente, faz-me sentir um agressor perante a miséria daquele homem que poderia ser eu.
Hoje em Portugal, a pobreza tem o nosso rosto e o nosso nome, não se limitando apenas às franjas da toxicodependência, do alcoolismo ou da marginalidade.
Somos nós os novos pobres de um velho Portugal que insiste em jamais partir e que parece destino.
O país do betão, de Cavaco, o país das pessoas em primeiro lugar, de Guterres, o país da ilusão de seguir o Cherne, de Barroso e Santana, o país “porreiro” das novas oportunidades, de Sócrates, está aqui deitado ao relento e à chuva, neste tempo que se constitui como mais um Alcácer-Quibir.
Ficamos uns segundos a olhar um para o outro, e sorrio-lhe enquanto da boca apenas me sai um tímido:
- Boa noite.
Retribui-me os votos de boa noite, e volta depois à sua leitura do jornal, enquanto eu sigo rua fora, sem me importar ou sequer me aperceber da chuva que cai.
Arrasto as malas. A memória carrega aquele olhar e o coração transborda de revolta.
Basta!
E este é o mínimo que posso fazer pelo meu compromisso com a dignidade que sendo dos meus semelhantes, é também a minha.
Sempre, e enquanto tiver voz.

1 comentário:

  1. A miséria de nossos pobres não é causada pelas leis da natureza, mas pelas nossas instituições.
    Muito bem dito BASTA! onde esta uma simples cama ? para estes pobres .

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