sábado, 20 de outubro de 2012

Pães de Deus


Lisboa revela-se esplendorosa na manhã de Outono, descortinando-se pela imensidão da luz, à medida que avanço por entre as folhagens ocres, castanhas e vermelhas de Monsanto.
Encontro a Patrícia triste mas carregada de fé, e na capela onde repousa a sua avó, sentamo-nos a falar das memórias que perpetuarão viva esta senhora que eu nunca conheci pessoalmente, mas apenas e só pela demonstração dos afectos que a sua neta, com quem tenho o grato prazer de privar diariamente, infinitamente lhe dedicava.
E de cuidados de mãe, de carinhos, de fofos Pães de Deus na merenda para a escola, de rosas brancas e declarações de amor, se foi fazendo a nossa conversa.
Uns instantes mais tarde, estando com um colega na área que é uma espécie de corredor de acesso às capelas, somos interpelados pelo sacerdote que vem para oficiar o funeral.
Cumprimenta-nos e surpreende-se quando o trato por Senhor Padre, tendo então de lhe explicar que uma cruz na lapela e um saco de papel com uma alva e uma estola de cor roxa, são sinais demasiado fáceis para o “descodificar”.
Explica-nos então que acabou de chegar, que vai presidir à Eucaristia e de que necessita de informação básica que lhe permita enquadrar a sua tarefa no funeral de uma senhora de 97 anos.
Questiona:
- Como era a vida desta senhora?
Nem nos deixa responder e complementa:
- Talvez nem os senhores, que não novíssimos, consigam saber? Esta senhora nasceu em 1915…
Dos presentes ali naquele momento, ninguém é da família, pelo que nos olhamos, hesitamos por momentos, mas acabamos por responder:
- Esta senhora, em 2012, vivia no contexto de uma família que a amava e passou pela doença com o conforto, os carinhos, o afecto, e todas as expressões de amor dos que a rodeavam.
Surpreende-se com a nossa resposta e sente-se na obrigação de se justificar:
- É que muitas vezes estas pessoas estão em lares a viver dias difíceis e a sua partida é quase uma bênção.
Perspicácia, bom sentido de observação e conhecimento da realidade… mas tristes vão os tempos quando até um Padre da Igreja Católica já assume que a regra é a indiferença e que a excepção, a tão pouco expectável ocorrência, é o amor.
Sorri tímido mas sinto-lhe o conforto de estar entre a sua gente, prole dos afectos, e solta-se exactamente pelos afectos. Consigo então e a posteriori ,ler prudência na sua questão inicial que me causou incómodo.
À medida que se paramenta, apresenta-se a todos os que foram chegando, e celebra a Eucaristia com um toque pessoal de intimidade, na palavra e nos gestos, que a todos nos deu o gosto de estar em família.
O amor, sentido e partilhado, jamais deixará de ser o melhor mote para todos os momentos. É e será sempre a suprema inspiração.
E pelo amor, sentido na festa de quase um século de felicidade da Avó Alzira, se lhe solta a fala para dizer vida, a nossa vida, e falar da urgência de olharmos para o positivo das pessoas e pormos de parte a mesquinhez do tão pouco que por vezes nos separa…
E pela vida falamos de Deus, que é Pastor, Pão e… Vida.
Devolvo-me à A5 nesse abraço em que a luz de Lisboa me preenche os ombros.
As cores de Monsanto não conseguem mesmo desmentir que é Outono.
Chegarão ventos fortes do lado da Ponte e as vulneráveis folhas, de castanho forrarão o chão, mas não morrendo jamais, as árvores imponentes a que primavera devolverá o viço.
E a queda das folhas no adeus de Outono, é muito pouco perante a Primavera, que é o que mais importa.
É e será sempre assim, muito pouco e fugaz, o adeus na morte para quem carrega o privilégio da fé.
É a Vida, o que mais importa.

1 comentário:

  1. Parabens, esta lindo mas é triste quando se perde alguem que tanto nos diz ,como os afectos de familia ficam sempre na nossa memoria

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