quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Tuga®


Estão ao meu lado a almoçar metades de Pizza enfeitadas de saladas de alface, verdes descarregares de consciência da dieta que os seus volumes exigem, mas que a sua gula e ansiedade de todo impedem de acontecer. São quatro e falam com um sotaque situado algures entre o da D. Dolores Aveiro e do Joe Berardo.
Cometo o pecado da indiscrição, escuto-as e não haja dúvidas, transpiram “portugalidade” por todos os poros.
Porque há marcas que estão mais coladas a nós do que o Pastel de Nata…
O Português nunca está bem, está sempre menos mal. E vai indo.
Quando afirma “eu não sou de dizer mal de alguém”, preparem-se os interlocutores, porque de seguida haverá pelo menos três horas garantidas da mais pura fofoca e maledicência. Não escapará ninguém e isto é não gostando de dizer mal…
Raramente assumimos o apetite e o prazer de comer, travestindo de sacrifício, o gozo que temos em estar sentados à mesa durante horas, degustando todos os pratos entre o pão com manteiga e a inevitável bica.
Elogios?
Só aos mortos e até o mais santo dos santos, há-de ter um defeito que nós não descortinamos mas que por certo estará lá.
Mas dizendo mal de tudo e todos, o que acontece quando se questiona sobre a necessidade de activar uma revolta:
- Não vale a pena. O que é que ganharíamos com isso? Só nos iriamos aborrecer.
Adoramos entrar no Campeonato da Pechincha e sabemos sempre comprar mais e melhor do que os demais, com uma incrível arte para negociar. “Eu conheço um sítio…”
Somos alérgicos à pontualidade e ai de quem a siga cegamente pois é rude, intransigente e insensível.
Em situações de apuros activamos o “desenrascanço” e sem dor “parimos” o misto de “Chico Esperto” e “Mac Gyver” que há dentro de nós. Numa fila de centenas de pessoas à espera para serem atendidas, não raras vezes convivemos com a “lusa lata” de um ser que ultrapassa todos com a jeitosa e costumeira desculpa:
- Vou lá à frente só para uma perguntinha.
Estamos sempre cansados, trabalhamos mais do que todos e mesmo que a nossa actividade seja vender barquilhos na Praia da Costa da Caparica, com todo o respeito pelos vendedores de barquilhos, todos assumimos que sem nós, a República Portuguesa morreria inevitavelmente.
Nós somos sempre importantes. Mas então e os nossos maridos e as nossas “esposas”? Têm trabalhos espectaculares, conhecem toda a gente, fazem carradas de pós-graduações e são capazes de mover a humanidade toda pela sua arte e influência.
E se para além disso existir pelo meio uma casa com piscina ou um filho a caminho de ser doutor, vai lá, vai…
Depois de muito comer e mais conversar, depois das pizzas, dos gelados, das bicas e das águas com gás na versão “Brisa Tónica”, as quatro “Estrelícias XL” minhas vizinhas de mesa, resolvem pagar a conta com quatro procedimentos de multibanco, em competição de cartões dourados, preparando-se de seguida para o regresso à sua Repartição de Finanças, onde por certo receberão as pessoas já à porta e a fazer fila, com ar de sesta e com arrotos de aroma de anchova, patrocinados pela bendita da água tónica.
Funchal, Ilha da Madeira, Portugal no seu melhor.

1 comentário:

  1. Não há momentos bons e ruins , apenas inesquecíveis.
    Rui Pereira

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