sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Veneza - Roma

O comboio deixou lentamente a estação de Santa Lucia, em Veneza, e olhando à direita, a imensidão da água e a infinidade de pequenas ilhas, quase nos dão a ilusão de termos dispensado os carris e estarmos a andar directamente sobre a água.
Apanhando-se em terra firme, o comboio acelera fazendo jus à sua condição de Alta Velocidade. Já que a nossa está agonizante intoxicada pela crise financeira, resta-nos aproveitar a dos que estando também em desacerto financeiro, se anteciparam e aceleraram antes os comboios.
Paramos em Pádua mas sem tempo para ir visitar o nosso Santo António, que descansa aqui mas será sempre da terra onde nasceu, a nossa Lisboa.
Segue-se Bolonha, a cidade que para além da famosa Esparguete à Bolonhesa passou também a ser conhecida pela “encolhe cursos”, e depois, Florença.
E aí está o pecado e crime do dia.
Passar por Florença e não descer do comboio para pelo menos cumprir o mínimo triangulo Catedral / David / Uffizi é motivo para pena capital.
A redenção obriga-me a voltar cá em breve, e como eu não me importo nada de cumprir o veredicto que de castigo não tem nada.
Mas o destino hoje é Roma, e para a Cidade Eterna, o comboio acelera.
De Florença a Roma, nos lugares vagos no conjunto de seis onde estou sentado com os meus pais, sentam-se três pessoas, e a conversa que nos envolve começa exactamente por esta curiosidade de estarmos ali seis pessoas, dois conjuntos formados por um casal e um dos seus filhos. Todos, pais e filhos, com idades idênticas.
E se há muitas semelhanças quanto ao arranjo familiar, as semelhanças quanto à geografia por onde se movem as duas famílias, são as possíveis entre Vila Viçosa e Phoenix, nos Estados Unidos da América.
Com o recurso da língua de Shakespeare falámos de tudo um pouco: política, religião, finanças públicas, trabalhos, ocupações extra trabalho, desporto, cinema…
Não dei pelo tempo passar, tão entretida foi a conversa e, ao chegar a Roma não pude deixar de pensar que as incompatibilidades neste mundo existem apenas quando e onde nós queremos que elas existam, porque se nos guiarmos pela dimensão do encontro, não há diferença que não possa ser entendida como uma cor que avive e enriqueça o todo formado pelo muito que sempre nos une a todos.
Importa que comecemos sempre por nos fixar no que nos une e façamos disso o nuclear das nossas vidas.
E depois, afinal, o mundo é sempre tão pequeno.

Comprovo também a pequenez do mundo com o episódio que vos conto a seguir.
Chegados a Roma, elegemos a Basílica de S. Pedro como primeiro alvo a visitar e ali, parados em frente ao novo altar onde se encontra e venera o Beato João Paulo II, ouvimos uma voz familiar por detrás de nós.
Um nosso conhecido de Vila Viçosa, pessoa que eu não via há muitos anos, mas que muitas vezes brincou comigo na rua onde nasci, estava ali também com a sua família, o que foi motivo para todos nos regozijarmos com a situação.
Então? É ou não verdade que o mundo é pequeno?
É verdade! É um facto!
Mas também vos asseguro que o que faz encolher o mundo são os afectos, que quando existem e se procuram, acabam sempre por matar o longe e a distância.

1 comentário:

  1. Bolas, Joaquim! Assim fica difícil comentar os teus posts! Estão cada vez mais bonitos e poéticos! Será por isso que os teus seguidores não têm a coragem de comentar?! Apesar da dificuldade, arrisco o comentário: são duas cidades que admiro e nas quais já tive a oportunidade de estar mais do que uma vez! Isto faz-me recuar ao post de dia 30 de Julho. Na verdade, a oportunidade de viajar e de fazer outras coisas de que gostamos, tem a ver com a persistência na luta por progredir e ter uma vida melhor! Dizia o Zé: "A vida é dura para quem é mole". É bem verdade! Nada se consegue sem esforço e se a maioria dos portugueses percebesse isto, talvez não estivéssemos como estamos...
    Espero ansiosamente os próximos posts!

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