quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

Planetas em trânsito e adultérios anunciados à mesa da Bénard


Um chá e uma torrada na Bénard cumprindo a ambição de um lanche tranquilo que se esvai rapidamente quando descobrimos que na mesa ao lado da nossa está a decorrer uma consulta de astrologia.
E se a senhora consultada fala baixo, o astrólogo projecta a voz ao jeito de um actor num teatro romano, para que todos escutemos a sua opinião sobre os mais variados assuntos, quase todos ao redor da vida íntima da sua interlocutora.
É impossível não ir seguindo a conversa alheia, facto que me deixa perfeitamente à vontade e sem temor perante uma possível acusação de deficit de educação da minha parte.
"Eu falo alto nos locais públicos porque com dois anos de programas de rádio a colocação e o volume da minha voz já estão incontroláveis"
É uma pena que a voz se tenha associado ao cérebro no descontrolo de volume e colocação, se bem que no que toca ao volume do dito, e ao contrário da voz, o problema seja claramente por defeito.
E quem paga com tudo isto sou eu, é o meu chá e a minha torrada.
"Eu adoro incomodar as pessoas inteligentes. Já afrontei os astrónomos todos deste país e já dei resposta pública a alguns no Correio da Manhã"
A referência ao nome do jornal era perfeitamente dispensável.
Em relação ao incómodo, não é líquido que o inverso seja verdade e eu nem sequer sou astrónomo, mas dado que estou tão incomodado com o senhor, é bem possível que eu não seja completamente burro.
“Sou intolerante perante as pessoas que não crêem em Deus”.
E Deus deve apreciar imenso essa atitude.
E se assumirmos que Deus revela o futuro a algumas criaturas, eu acredito mesmo que Ele escolha este ser anoréctico montado num casaco colorido que parece um genérico dos do Manuel Luís Goucha.
"Nestes dias do final de Fevereiro prepare-se porque a sua vida vai mudar. Saturno e Vénus estão em trânsito (não sei se perdidos na A5 de onde vim), e essa mudança até pode implicar um novo companheiro"
“Ai que bom”, responde a mulher pedindo a repetição das datas em que tudo irá acontecer.
E perante o anunciado adultério a mulher sempre vai dizendo baixinho que o marido é esquizofrénico.
Pois...
Não vá o astrólogo ter razão e ela tenha de se justificar nalguns fóruns sociais. Assim já vai treinando.
Eu não sei de que doença do foro psiquiátrico ela padece, mas aqui assim sentada com este “cromo” e a dar-lhe ouvidos, não é de estranhar que a esquizofrenia possa ser também uma realidade.
“São ... Euros, mas veja lá se fica incomodada. Veja lá. Veja lá”.
O “valentão” só diz baixinho o que eu queria ouvir e que era o valor da consulta. Mas a avaliar pela insistência na questão sobre o possível incómodo, eu deduzo que o preço não seja acessível.
Mas a senhora ainda lhe paga mais qualquer coisa; o anúncio de um adultério é coisa muito cara.
Com a torrada e o chá já consumidos, eu pago e saio da Bénard um pouco antes do estranho “casal”.
Na rua há um homem que desenha imagens de Fernando Pessoa e me questiona:
- O cavalheiro não quer levar o Fernando Pessoa para casa?
Hoje não mais para além dos muitos livros com poemas que por lá tenho.
E que sendo ele dado também a astrologia…

Sem comentários:

Enviar um comentário