domingo, 1 de fevereiro de 2015

Nós a sorrimos por sobre a dor, tal qual as mimosas por sobre a chuva e o frio de Fevereiro.


A chuva fria batida violentamente pelo vento forte consegue aumentar ainda mais a solidão na hora em que a morte tem irremediavelmente o ritmo de um adeus ao som do bater triste da terra sobre a madeira.
Na encosta do silêncio, atapetada de pedras rasgadas por letras de saudade, consigo ao longe vislumbrar uma mimosa que se prepara para explodir de flor neste início de Fevereiro.
Consigo sorrir às mimosas e também mais tarde aos golos do Benfica que me chegam pelo telemóvel. Sob a madeira, o Tio Joaquim adormeceu com o emblema do nosso Benfica na lapela e estará a sorrir algures por entre o “bruá” de festa que nasce da Luz.
Entretanto parou de chover e eu estou no Chiado.
Passeio com as mãos nos bolsos do sobretudo enquanto espero a Margarida.
 O destino hoje roubou-nos a bifana mas servir-nos-á um jantar tranquilo feito à conversa enquanto esperamos a Mousse de Chocolate do Pap’Açorda. Só mesmo nós para escolhermos um restaurante pela saudade de uma sobremesa.
Entre cumplicidades, amores, viagens, ambições, agonias patrocinadas pelo tempo, palavras, projectos, trabalho, gargalhadas… somos a mesa mais animada do restaurante e criamos esta certeza de que há jantares patrocinados pela amizade que se constituem como mimosas em flor que brilham sobre os dias até do mais profundo silêncio.
Depois damos um pequeno passeio, entramos numa loja e compramos um lápis cor-de-rosa que a Margarida vai usar para escrever quiçá o roteiro da próxima viagem a quatro, compramos um presépio que tem a dimensão de um feijão, e a miniatura de um eléctrico que alguém irá receber por estes dias algures na altura de um beijo dado nas margens do Tejo.
Chego a casa quando o relógio marca o primeiro minuto de Fevereiro.
Desaperto o cinto das calças e descalço os sapatos para me oferecer cinco minutos de sofá…
Por entre eles vislumbro um amigo e ficamos à conversa durante algum tempo, uma conversa com os dedos e feita de palavras escritas. Falamos da solidão, de amores e da urgência de viver.
Os olhos estão a fechar-se.
Levantei-me às seis da manhã para ir a Vila Viçosa buscar os meus pais.
Despeço-me com um beijo escrito e transporto-me para a cama, adormecendo sem que me lembre sequer de ter apagado a luz.
Os dias da morte pedem que convoquemos os amigos e os temperemos de vida na urgência que nos compromete com a vontade de jamais desperdiçar um segundo que seja nesta batalha por sermos felizes… e nos sentirmos vivos.
Nós a sorrimos por sobre a dor, tal qual as mimosas por sobre a chuva e o frio de Fevereiro.

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