sábado, 25 de novembro de 2017

A árvore que namora com a serra


Na auto-estrada um, no sentido Lisboa Porto, do lado esquerdo e quase a chegar ao nó de Torres Novas, há uma árvore “empoleirada” no cimo de um pequeno monte, que há anos namora com a Serra D’Aire e Candeeiros, ali mesmo em frente. Sempre que a primavera escreve versos de urze e giesta, pela encosta acima, ela responde ao cortejar da serra, cobrindo de verde a sua paixão. Chorará depois, bem mais tarde, e folha a folha, quando Dezembro lhe desmanchar definitivamente a esperança de que seria este o ano que lhes “mataria” a distância.
Gosto de entender a linguagem das árvores, sentir o seu abraço distendido e honesto às horas que passam, e prometi a mim mesmo que um dia escreveria sobre este amor tão grande, mas tão impossível quanto o do sol pelo luar, ou o do norte pelo sul no contexto de uma qualquer hipotética, mas irresistível, atração polar.
Mas talvez um dia o vento sopre de um modo tão forte, que a árvore e a raiz possam voar finalmente sobre a auto-estrada, entregando-se no beijo que a sua seiva vai sonhando, ano após ano.
Rasga-se e perde-se a terra do nosso conforto, destrói-se a pose imperial, e, dirão alguns que foi tudo uma imensa tragédia, vendo os seus troncos e folhas pousados sobre os parágrafos de urze e giesta.
Às vezes, aquilo que se vê tem tão pouco do muito que se sente.
A linguagem das árvores é igual à dos Homens, em tudo, e também na vontade que desenha estes instantes de condor, antídotos da distância e da solidão.


(Agradeço a foto ao meu amigo Fábio Almas. Os dias nascem e morrem mas o sol insiste em fazer-nos acreditar.)

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