sexta-feira, 21 de junho de 2013

Verão

É o sul que busco passando a Ponte, o campo preenchido de um já alourado trigo, o infinito horizonte bordado pela nobreza dos sobreiros, a terra a que sempre chamarei a minha casa.
O sol queima e o calor turva-nos o olhar sempre que miramos mais além, neste dia mais longo, tempo e privilégio de solstício, amanhecer único e raro que nos trouxe o verão.
Mas foi muito generoso o inverno e fez ressuscitar todas as fontes…
Detenho o passo numa raríssima sombra do caminho (que cúmplice do sol é esta terra mais do que todas), bebendo da água por um coxo, nó de sobreiro, marca de Alentejo que me acompanha e que de aroma de cortiça tempera sempre, o saciar da minha sede.
Sei que há uma casa branca que espera por mim, fresco tesouro revelado na tarde, pelo banal gesto do abrir da porta. E mesmo não sabendo quais, sei que cheirarão a campo, todas as flores que a mãe mantém viçosas na jarra grande que tem lugar cativo naquele canto reconhecido por todos como o mais nobre da casa.
E a noite cairá por sobre a memória dos serões passados no convívio de todos, na rua, espaço de vizinhos tornados família, quando sentados entre portas, ou até deitados nas mantas tecidas de todas as cores, esperávamos que a noite nos oferecesse uma rara brisa que viesse dar um patrocínio ao sono e ao descanso.
Um dia, no privilégio de uma viagem de amigos, passeei entre as pedras que alimentam em Inglaterra, a magia de Stonehenge. Aqui, no meio de um campo que não tem mais nada, mas que se respira imortal, sabemos que o sol rigorosamente se alinha por sobre o monumento, no despertar de um dia assim.
E a magia do tempo, comprova-se, cruzou todos os tempos.
Prometi voltar a Wiltshire num solstício, para beber da magia.
Ainda não cumpri a promessa, mas vou cumprir. Por certo feliz.
Sei no entanto que essa manhã não substituirá jamais este “rasgar” estradas rumo ao sul, saboreando a magia única do meu Alentejo numa tarde quente de um recem nascido verão.

2 comentários:

  1. O nosso sempre belo Alentejo a inspirar o nosso grande escritor alentejano.
    Força e boa busca de mais inspiração nesse nosso sempre grande Alentejo.
    Com um forte abraço.
    AR

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  2. Nada mais lindo, nada mais encantador, que um uma noite de verão na companhia do nossos queridos
    Bom fim de semana
    RUI PEREIRA

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