terça-feira, 11 de junho de 2013

Capadócia

Numa festa em tons de encarnado, o sol nasce por detrás do vulcão que há milénios repousa, justo descanso do arquitecto que um dia pela sua lava esculpiu estes montes e vales, entregando-nos à imaginação as formas únicas de infinitas rochas.

E de cada rocha, a mão do Homem fez abrigo, rasgando-as de portas e pequenas janelas. E da pedra nasceu uma casa.

Um dia Cristo chegou para virar o tempo e mudar a História, e nestes abrigos plantados no exacto ponto em que a Ásia e a Europa se encontram, se reuniram os discípulos congregados pela fé no Nazareno, o Ichtus, Jesus Cristo Filho de Deus Salvador. E as paredes dos abrigos onde nasceram igrejas e onde a mão do Homem louvou a Deus, encheram-se de peixes, o Ichtus na língua dos Gregos.

É meio dia, o sol está a pique e aqui sente-se bem que é verão. Fico para trás e por momentos vejo-me só na simplicidade de uma destas Casas de Deus nascidas na rocha. Respira-se uma simplicidade que definitivamente nos aproxima mais de Deus.

A sumptuosidade das catedrais tem demasiada mão do Homem e do seu poder tão terreno e tão pouco divino. 

Saio enfrentando a luz do sol, muito a tempo de escutar o canto que emana do minarete de uma mesquita próxima.

Momentos, sons, pinturas e vozes diferentes mas de um só Deus.

Aqui não há tumultos por nada e por Deus e, por falar de paz, até consigo ouvir o voo das pombas entrando e saindo dos seus abrigos na rocha, esse local onde o Homem recolhe os dejectos das aves para acrescentar fertilidade à terra.

Reencontrarei mais tarde as pombas servindo-se de alimento num campo de trigo cumprindo o ciclo do dar e receber que a natureza todos os dias ensina ao Homem.

Os longos vales têm rochas e searas de trigo, mas em alguns lugares, a benção da água tingiu de verde a paisagem onde também brilham damascos e cerejas.

Foi nesses "oásis" que nasceram as pequenas aldeias.

O autocarro passa acelerado mas consigo vislumbrar no modesto alpendre de uma casa, uma criança que interrompe a sua brincadeira para nos acenar e dizer adeus.

E aqui onde a Europa e a Ásia se encontram, onde voam pombas por sobre as diferentes faces de uma só fé, há o sábio gesto de uma criança a ensinar-nos como é afinal tão simples preencher os dias com o inigualável sabor que advém da paz.

1 comentário:

  1. Que beleza de texto. Quem pode ficar indiferente ao aceno de uma criança, na sua simplicidade e pureza. Abraço. Artur.

    ResponderEliminar