quarta-feira, 5 de junho de 2013

Os cravos que sorriem à janela

Na casa de primeiro andar da minha avó Francisca, na esquina do lado esquerdo de quem desce a Rua do Poço em direcção ao Rossio, existia uma janela grande de madeira pintada de vermelho, adornada por estes dias de Junho, por uns vasos de barro onde sobressaiam cravos de várias cores.
A natureza, que a avó cuidava com mãos como mais ninguém, permitia-lhe dispensar as flores de papel que todos fabricávamos naquela zona da Vila e que se destinavam a celebrar o São Pedro.
Quando a visitava, a avó Chica por vezes colhia e oferecia-me uma dessas flores, já depois de eu ter aberto a porta pelo postigo que me permitia o acesso ao trinco e de ter gritado o seu nome enquanto galgava os degraus da escada curva que tinha uma acústica única.
Num dia de Junho, no tempo em que os serões da morte se passavam em casa e porque a curvatura da escada impedia a passagem de um caixão, os bombeiros chegaram ao fim da tarde e fizeram passar a avó entre os seus cravos que como sempre brilhavam à janela no mês de São Pedro.
Durante anos, os cravos continuaram a despontar dos vasos de barro que persistiam no seu sítio de sempre. Os anos suficientes para que eu comprovasse que o brilho dessa janela não lhes era devido e morrera com a minha avó, ela que sempre insistia em espreitar fazendo naturalmente sobressair o seu sorriso por entre as flores.
Na minha memória esse sorriso perdurará sempre, impondo-se inclusive à ruína do edifício em que tudo, do chão ao telhado, me deixa uma enorme saudade.
São aqueles que amamos e que nos amam, quem define a dimensão do tempo e de todos os espaços.
Hoje, a noite convocava-me para um agradável jantar de aniversário à beira Tejo ali junto à colina que desce de Santa Clara.
O repasto foi desconvocado.
O aniversariante, meu amigo de muitos anos, está longe de Lisboa, está na terra onde brincámos e nos ensinaram o privilégio do amor, no sítio onde o coração lhe impõe que esteja, porque contra todos os ventos e marés, quer assegurar que a sua mãe continue a pôr a brilhar o seu melhor sorriso à janela da casa que será sempre a sua.
Só ele estando ali o consegue fazer, não olhando jamais à cómoda facilidade de um jantar que seria recheado de gargalhadas.
Sobrepõe-se o gosto de ver a sua “flor” despontar por sobre todas as outras flores e cumpre com generosidade a sua parte numa herança inserida no inquestionável ciclo do amor.
Apenas o amor vivido assim de uma forma plena e intensa consegue a profilaxia da saudade que chegará inevitavelmente quando a vida, seguindo o seu rumo, deixar a janela com vista para a Corredora, tão definitivamente vazia como há décadas está para mim a janela que dá para a Rua do Poço.
Sabemos que maior do que a dor da ausência de quem se ama é a dor do irreversível desperdício das oportunidades de amar.
E eu, no silêncio do meu jantar solitário, ergo-lhe orgulhoso a minha taça desejando-lhe vida longa e muita saúde.
Por ele sinto-me muito mais rico pois grande parte do nosso valor é-nos dado indiscutivelmente pela grandeza dos amigos que temos.

2 comentários:

  1. Aprendi que devemos sempre agradecer por tudo que acontece em nossas vidas, nunca sabemos o que Deus tem para nos dar, mas Ele conhece nossos corações, nossos medos e nossas necessidades...e os nossos amigos parabéns por esta lindas palavras pelo amigo que és
    RUI PEREIRA

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  2. Devemos dar graças a Deus por tudo o que acontece na nossa vida, embora muitas vezes não seja assim.
    Não há maior riqueza que as oportunidades que temos de amar e sabermos valorizar as pessoas que amamos.
    Tanto na amizade como em tudo na nossa vida e à nossa volta.
    M.Pereira

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